Aprender pelo contexto e compartilhar pelo bom gosto
Outro dia vi uma opera no Palácio das Artes - uma ópera bo ba, como, aliás, deveria e são todas as óperas. No final uma discussão sobre o fim das letras na música e popularização da música por um enredo, narração, macarrão.
Pouco se atreve nas letras e pouco atrevidos são os letristas e adaptistas e enredistas e salsichas. Ouço e leio sempre os comentariantes e opiniantes e refrigerantes públicos sobre esse assunto e mexo os ombros, só o esquerdo. Sempre procurei a opnião desconhecida. A opnião anônima, ao contrário da popular. Quando digo anônima, é aquela a flor da pele. Ao contrário da profunda.
Então perguntei a quem entende de música. Um ser que pratica a misantropia, um sábio da misantropia, por mais paradoxo que soe isso, se comparado à sabedoria. O que difere e divaga no experimentalismo da opnião não viciada.
- E aí Cachola, o que achou da ópera?
- Bom, a introdução é imperdível Lê-se no alto, perto das nuvens, basta ver grandioso cartaz!
Outdoor:
Texto de Shakespeare e adaptação de Verdi
Macbeth - No Grande Palácio das Artes
Realmente, parece imperdível. E o Teatro estava lotado mesmo. Ao contrário da estréia do documentário brasileiro Löki, sobre Arnaldo Baptista. Que a introdução já dá um enjôo. Basta lembrar de qualquer apresentação de um filme nacional pelo Canal Brasil e vem logo um mal-estar acompanhado de um mal-gosto quando surge a vinheta: “o Canal Brasil apresenta... mais um filme brasileiro”. Löki não traz nada de novo em relação aos mutantes. Nada que não se possa achar na internet. O ineditismo está em alguns depoimentos do Arnaldo, e o fato - fetichista - de ver os Mutantes numa telona de cinema.
Recebi visitas ilustres aqui, vândalos altamente letrados. Elogios que me causaram constrangimento e ereção. Nunca fui escritor, sou poeta. O fato é: não sei escrever como Oscar Wild. Por aborrecimento e falta de estilo tentei criar um blog. Copiei e me copiaram. Me diverti. Menti. Continuo roendo as unhas e as cuticulas com medo de morrer primeiro que a Hebe Camargo.
Com a pressão da mídia, por um meio mais interativo, fiz das pontas ouvido. Hoje me comunico escutando, tossindo e tocinho. Ando cometendo muitas contemporaneidades por aí.
A calvice continua acelerando o aquecimento global e as loiras oxigenadas vão substituir oceanos grisalhos por um mundo mais sábio e menos informativo.
estejam presos, seus poetas alcoólatras e homofóbicos, personagenzinhos de Nelson Rodrigues
Acordei o resto do pessoal para fazer uns drinks e jogar poker. Enquanto o Half pedia dicas de nome para o seu mais novo blog.
- Alguém me ajuda é um bom nome de blog, Half, eu disse.
- Acho que vou por o nome da minha vó, em homenagem ao meu avô.
- Põe Nutrela. Palpitou Francis, enquanto se levantava do banho de sol, tampando os seios com as mãos e adentrando na varanda.
Não é Nutrelaa é Nutela, pensamos.
- Nutrelaa não soa melhor, gente? Você já lambeu uma boceta cheia de Nutela, Half? Aposto que não. Você não tem cara que gosta de chupar boceta. E deve se achar bem moderno por saber o que é cunilíngua.
Por mais excêntrica e erótica que Supernova fosse em seus comentários, ela era linda demais para ser julgada pelo seu comportamento. A beleza deveria ser a primeira defesa em qualquer tribunal. Se o tribunal tiver cinco jurados, Francis entraria com quatro votos a favor.
- Half, você tem blog? Aposto que seu blog é um diário de suas experiências sexuais. Depois que o Lula substituir o CPF pelo Blog, todo mundo terá uma vida bem mais agitadinha.Você vai se aproveitar bastannte do certificado de pessoa virtual, Half.
Francis tinha o jeito de ser gostosa que era de praxe de toda garota que acaba de descobrir que é gostosa. Ela foi saindo rebolando, mostrando sua bunda rosada e tonificada pelo sol. Levava, nos seios, uma marquinha de nascença e uma perfeição de nascença também. Olhou para trás, deu um sorrizinho malicioso, no qual Half logo retribuiu com uma piscada. Half era sábio. Só um idiota se ofenderia com as palavras de Francis Supernova.
A Lizza gritou. Ninguém entendeu. Mas a Melina foi logo se defendendo. Acusando que o Léo tinha mais peito que ela, e ainda tinha cabelo no peito. E ninguém nunca proibiu o Léo de andar sem camisa, dizia Melina. O Léo pode, respondeu Lizza, namorada do Léo. Ninguém entendeu o porquê daquela confusão. Eu acho uma indecência aquela barriga de fora – dizia Lizza - apontando o dedo para a barriga do Moisés. O Moisés era o carinha que comia a Bella, aquela que deu o cu pro Juninho na casa da Fê, no niver da Rô.
Eu e a melina ensaiamos ver aviões e elfos no céu durante o silêncio, pela falta de eletricidade no sítio. Quando acaba a luz, os tímidos se assanham, e os extrovertidos se escodem. Mas isso não é regra nem fleuma. Quanto mais evasivo fico, mais sábio se torna o que eu digo.
Nasci no tempo em que decorar poesia e recitá-la já era ser reacionário. Enquanto me convertia à várias seitas, em vão, e rompia com todas elas, no instante seguinte, meus amigos plantavam hortas e viravam selvas enormes, enraizadas.
Agora eu sou do tempo em que cigarro e o gene causam câncer e a física é quantica. Era do tempo em que se usava cabelo surfista, eu insistia com meu corte chanel, cheesy but cool. Era do tempo das frases legais em inglês, Let’s go, let’s go that! Agora, no entanto La decadence est le choise très charmant de l’humanité.
Hoje eu mesmo corto meu cabelo e minhas palavras. Nunca consigo identificar o que eu fiz. Antes era preciso pensar na palavra certa para dar nome a algo. Agora eu preciso de algo para pensar. Vivo num país onde boina é de tio e cachecol só num puta frio.
Sou do tempo em que, se não bastasse tocar violão, é preciso compor canções na guitarra ou teclado e gravá-las no computador. Sou do tempo que o hífem era-recurso, as tremas decoraväm verbos e os acéntos em ditongos abertos. Comme dit-on?
Lembro-me bem, porque eu também já fui escriturário. Sabia em que dia do mês estava. Tinha pra onde ir, e nesse lugar alguém por me esperar.
Sou do tempo que esse tempo já passou e eu teimo em não cair na real. Porque sou do tempo que a realidade está em colapso com a liturgia da modernidade. E em prantos, clama, Obama sem ortodoxia. Adeusão.
Um videozinho de Torquato Neto, por Jards Macalé e Paulo José. Agora sim, Adeusão.
Dia nublado pra cacete. O sol ameaça fugir pelo cu das nuvens. O professor de ensino fundamental, o excêntrico Getúlio Montanha, entra na sala com seu humor característico de sempre.
- Bom dia, filhos da puta de merda. - Bom dia Professor. (coro dos alunos) - Hoje eu estou muito contente. Finalmente parece que vai parar de chover nessa cidade de merda, Belo Horizonte fede. - Ricardinho! - Presente, mestre. - Não perguntei se estava presente seu veado estúpido. Quero saber o motivo pelo qual você só me aparece aqui molhado e com essa porra de touca de veado na cabeça. - Professor, estou molhado porque a desgraçada da minha mãe não se casou. É uma pobre fudida que não tem empregada nem dinheiro para comprar-me roupas. Então eu venho com roupas molhadas ao invés de borradas de merda. - Ok, Ricardinho, e essa touca? - Tenho câncer professor. - Que doença de merda, hein? - Alfredo, venha até o quadro e apague toda essa merda que aquela professora sapata sempre deixa aqui, aquela cabeçuda nordestina, puta parida! - Não posso professor. - Por quê? - Porque sou paraplégico. - Ha ha ha ha. Eu sei, estava só brincando com você. - Hilda. - Sim, Getúlio. Por que as mulheres falam mais do que os homens? - Não sei. - Porque os homens tem duas cabeças e as mulheres dois lábios, hahaha. - Lopez - sí. - És argentindo, no és, Lopez? - Sí, professor. - Te orgulha ser argentino? - No, pero mais que brasileño. Pero nenhuma nación latino america és mejor que o otro, professor. Son todos una mierda. - Muy Bueno, Lopez. - Lopez. - Sí, professor. - Sabes por que os argentinos podem jogar futebol e os cavalos não? - Está comparando los cavaios com los argentinos, professor? - Claro que não, nunca faria isso com os cavalos, Lopez. Ha ha ha.
- Vamos parar de merda. Vocês precisam aprender a não tomar no cu, caralho. Essa boceta de mundo que vocês vivem. Puta que Pariu. Vocês sabem que não tem futuro algum, sabem? E que todos os governantes de merda cospem na educação. E vamos morrer todos de bombas nucleares, miséria e preconceito? - Não, professor. - Você é cego, Bruno? O que estou fazendo agora? - Mostrando o dedo do meio, professor. - Então você sabe, Bruno, você não é cego, é inteligente, só que nunca usou isso. Agora Todo mundo mostrando o dedo do meio para o Bruno, porra!
Chesterton acredita em fairy tales. Eu não. Pelos menos não na proporção de Ortodoxia. Mas concordo que não tem nada mais prazeroso na vida que discutir usando varinha de condão. Eu desconfio de Chesterton. Embora acredite em toda sua bazófia à sombra da ciência. A tudo que é irresístivel e irreal. Nesse livro, muito arriscado que ele se propôs a escrever, o argumento usado é uma resposta ingênua e constante - como tudo que é óbvio - dada ao Bernard Shaw (o único homem que nunca escreveu poesia na vida, segundo Chesterton) e ataques de bolinhas de papel com secreções insípidas nos ateus e agnósticos de todos os tempos.
Ele criticou Nietzsche como quem discorda de um comentarista de futebol. Compara Joana D'Arc com Tolstoi, numa suplemacia demagógica que soa como elogio catatônico à risadinha de criança diante de uma palhaçada circense. E defende, declarado e apaixonadamente cego, a tradição e a manutenção do Cristianismo Católico. Isso tudo é digno. Ortodoxia, por vezes, é uma paralogia, uma anedota slow emotion, literatura cacetada. Ortodoxia não é para ser entendido, se for o caso, é obra do acaso ou fatalidade da sorte. Quem quer que se disponha a discutir o que quer que seja deveria sempre começar dizendo o que não está em discussão. Esse é um dos dribles que o Chesterton tem. Ele faz de tudo para você não acreditar em sua retórica. Isso é muito persuasivo por si mesmo.
Por mais que escreva um elogio à genialidade de Chesterton, ela é falsa como um truque. Ela é obscura como um blefe. Jamais me colocaria no papel do meu personagem como Chesterton fez. Dono de uma imaginação aguda, proriferou personagens realmente mágicos e dignos de romance, dignos de um homem de mente criativa. Mas nunca interpretaria uma cena sequer de um personagem meu, por mais quinta-feira que eu fosse. Por mais tradicionalista que fosse algum personagem meu. Ortodoxia é ruim. Chestertom é bom.
A próxima novela da rede Globo, escrita por Glória Perez, terá um personagem blogueiro. Um indiano que vem morar no Brasil e cria um blog e tal. Será engraçado. Alguns blogueiros e portais já estão falando sobre isso.
Sei que a meta dos blogueiros é dominar o mundo sem sair de casa. Eu continuo sendo contra o modernismo dos blogs, contra o uso de maiô, bigode e gravata borboleta. Continuarei fazendo meus post ready-made, post-arte e post-retrô. Isso aqui continuará sendo um blog macho.
E para quem ainda não entendeu, aqui vai um clip falconiano que explica a questão da ploriferação de tanto blog "ajeitadinho" por aí.
Hoje eu acordei pensando na Austrália. Que país deve ser aquele. Pressenti que meu dia seria improdutivo. Não tem nada na Austrália. O país, em si, serve apenas de cenário para um filme da seção da tarde da Globo. Quando penso na Austrália, agradeço ter nascido brasileiro. É estranho dizer isso, nunca passei por essa situação. Ainda bem que a Austrália fica bem longe daqui. É uma verdade que me incomoda, mas nunca pensei que pudesse existir um lugar pior que o Brasil.
O quê tem nessa ilha além de algumas bandinhas de rock, comunidades de feministas e gays, surfistas e nadadores de medalha de prata em olimpíadas? Atores como Errol Flyn?, homosexual e acusado de estupro, que atuou na adaptação de The Sun Also Rises nos anos 50, - alguns jornalistas sem importância?, como todo jornalista do mundo.
Mais de 45% da Austrália é quente, feia, desértica e hostil. E o restante é uma Ásia loira, alta de olhos abertos, desgrudada do continente por acidente ou tragédia. Uma New Englad sem peito nem bunda, californiana, porém, com uma cultura mais próspera, simpática, pacífica, mais emergente, de pessoas mais expansivas e mais alegres, alegres demais.
Ouvi de um estudante brasileiro, que ama a Austrália, desinformado e de mente trópica, que Charles Darwin era australiano. Pelo fato de Darwin ser uma cidade australiana, que, aliás, bombardeada merecidamente pelo Japão. E a pequena ilha do oriente só não devastou a terra do diabo da tasmânia porque o Japão estava do lado dos Alemães, e a Austrália sem lado, isolada do mundo, foi aparada pelos aliados americanos. Austrália é isso, uma criança pobre com um passado obscuro, adotada por pais ricos.
A Austrália, apesar de ter abrigado os renegados e degredados ingleses do século XX, é um país bem adotado. Teve herança de um idioma e de toda uma cultura promissora e, consequentemente, suas crianças estudarão a melhor literatura de Shakespeare, George Orwell, Oscar Wilde, Jaymes Joyce Eveyn Waug, Hemingway, entre tantos. E como a Austrália só tem pré-história, as crianças provavelmente estudarão artes, ciências, se aprofundarão no renascimento e no ilumisnismo europeu, e não confundirão a cidade de Darwin com a cidade natal do cientista inglês.
Sobre a Austrália, prefiro ficar com a passagem de Homero, onde a ninfa Calipso acolheu o grande Ulisses em seu arquipélago para um romance tórrido, que quase o fez desistir de sua viagem. Ou como Camões descreveu, nos Lusíadas, como ilha paradisíaca, cheia de ninfetas para os portugueses saciarem seus desejos. Ou até mesmo, daquela história de um herói aborígene, que depois de um feito em Sidney, as autoridades da cidade concederam a ele um pedido, no qual o índio australiano pudesse levar para Outback, in Oz, qualquer coisa da cidade como prêmio, e o jagunço gringo escolheu uma torneira. Parece piada de português, ou trecho de algum romance de Guimarães Rosa.
Aqui não é youtube nem google, mas... hoje é homenagem.
Em homenagem ao inclassificável humorista Ruy Goiaba, que abandonou o blog Puragoiaba em Novembro de 2008. Fez a maior batucada na blogsfera desde 2001 com postagens antológicas. Divertiu-se e nos divertiu. Valeu, abraços e, adeus não, até logo, professor.
Texto extraído do Blog puragoiaba.
O mais engraçado é que a continuação desse post critica quem gosta de alardear o que (supostamente) faz na cama e se considera "moderno" só por isso" - Porque me ufano deste país que não limpa a bunda (...) Tentei a música. Custa-me confessar, mas eu fiz parte da primeira formação do Menudo, que na época, poucos sabem, era um sexteto (Charlie, Ricky, Robby, Ray, Roy e Ruy). Durou pouquíssimo. O empresário me despediu dizendo, sem muita delicadeza, que minha barriga cervejeira não combinava com o visual do grupo. Mas a história verdadeira é outra: eu fui o único da banda a passar no teste da farinha, o que implodiu minhas possibilidades de sucesso no mundo artístico. Como tantos outros fracassados, acabei fazendo jornalismo. Concorri à eleição de "jornalista do século 20" da revista "Imprensa", mas aqueles calhordas retiraram meu nome da lista antes da votação final. Nenhum problema. Outro goiaba deve ter ganho. Aliás, se você ainda não notou, o jornalismo brasileiro é o reino da bananada de goiaba. - Ruy
Adeus, Batucada (S. Silva)
Video de Ney matogrosso, com legenda em español, para deixar mais brega. O Ney sempre respeitou as canções e os compositores populares. Nunca sobrepõe sua voz à canção. Valoriza a batucada. Cantores populares precisam saber interpretar. Performance VOCAL e intermináveis solos é para tenores, musicos eruditos, orquestras e para os baianos de trios elétricos.
Na maior concepção de interpretação, Ney Mato Grosso, o nosso panda brasileiro. Mas a versão da Carmem Miranda, diga-se rapidamente de passagem, ainda continua insuperável. Caso vocês não conheçam, vejam aqui também.
Espero que você volte logo. It's hot outside, now, jude, it's bad out there, para variar nossa canção. Vou dormir com medo, mas com o coração sorrindo, "até logo" batucada, isso é sinal de alerta - estamos na melhor parte do sonho, quando as sombrancelhas tiritam com os lábios. Nunca acorde um sonâmbulo no meio do sonho. Sempre digo isso. Mas por que eu me repito tanto. Admiração.
Mas quero que aproveite bastante. "Coisas que você gosta e eu não gosto". Como não? dream of, remember? Eu gosto de pequi. O cheiro do pequi e o gosto que você não gosta (mas eu gosto). Sejamos loucos, românticos, mas, sim, civilizados, civilizados entre nós, claro, somente. E durma leve, sem preocupação. Vou estar esperando por você. Cometeremos todos os abusos possíveis que um ser humano pode cometer, tudo que deixamos para trás. Suicídios aristocráticos, crimes plebeus, sexo hediondo, anaïs nin aqui no trópico perde.
I also wish you was here, mas no meu caso não tenho ninguém pra dizer isso. O que torna todas as coisas uma declaração à sua ausência. Foutre Nietzsche para as pessoas que não tem sua própria teoria. Esse blog é meu, aqui eu minto, falo verdade, invento e não dou explicações. Aqui sou antipático, não peço amigos, não quero comentários. Jane Aunsten disse em seu livro, Pride and Prejudice, que orgulho é sentir-se "cheio de si", enquanto a vaidade é que o outro ache que você é "cheio de si". Eu digo que tenho vaidade de você, jude.
Sabe a diferença dos escritores clássicos para os escritores marginais? como diria meu guru de pijamas, é pouca. l'decadence est le choise tres charmant de l'humanité, por isso vou exercitar meu bíceps. Acabo de quebrar minha independência por artefatos, me acento agora, deslumbrado com duas coisas que me apetecem de deslumbramento e vaidade, meu pensamento e você, jude. Olha o que eu achei, jude?, uma confissão: a busca pela liberdade vive presa em ideologias e facetas baratas, leis e tudo que não vem ao caso. Filosofia é coisa de mijão.
Volto a falar de mim. De nós. Eu, cavaleiro de neve, em nome da eterna gargalhada, ataque! pois o mundo anda tão bonachão como sempre foi. Na falta de um interlocutor eu escrevo pra você, jude. Pego um caminho desconhecido. Por vezes, o menininho bobo que se tranca no quarto e não sai da décima página de Proust. Por vezes, o poeta mediocre e compositor barato. Por vezes, o escritor só por dizer e impressionar a atendente de marketing ou quem entra no meu orkut. Por vezes, o capenga, por vezes o super-herói. Por vezes o divisor. Por vezes seu amigo, por vezes seu inimigo. Inimigo de todos. Por vezes, o poético demais, estúpido e caoticamente poético. Volta logo antes que eu confesse em blog público que te amo.
A Duquesa não amava. É importante dizer isso logo. Também é importante que saibam que ela se chama Mathilde. Da mesma maneira que é importante citar um trecho do livro Sagrado Campista pelo qual a Duquesa foi educada:
Vida - coisa pela qual fiz sem nenhuma referência baiana. Avancemos. Eu vos encontro em Outback - OZ - e vos reconheço em dúvidas de Small Sea. Escondo-me na certeza dos outros. Diga-me um absurdo e em mentira vos encaro fazendo careta e dizendo outros dois: a vida é linda, a vida é importante. Séc. III depois de Caiocito.
Diziam que a Duquesa tinha pouco espírito prático, e o pouco que tinha não era razão para acreditar nos homens, Deus ou no Rei Roberto Carlos. Aliás, crer, (crer em qualquercoisa) demora demais. Quem confere? Num sorteio em Gaulois, Cidade do Castelo, deu coroa, e a Duquesa escolheu virar orgulho da família.
E Girard? Girard era foda, mas virou poeta para conquistar o coração da Duquesa. Perdeu seu talento para coisas fodas e ficou apenas com argumentos de cidadão honesto para justificar sua existência. Girard pedia ao tempo mais tempo, porque metade do dia ele gastava com o medo pedindo coragem, e a outra metade era alívio da alma ou qualquer coisa astral que deixasse a existência frouxa.
Todos do Castelo odiavam Girard porque Girard não tinha Castelo, nem Lego, nem Banco Imobiliário. Conhecer Girard não mudava a vida de ninguém em Gaulois, embora seus versos pudessem matar qualquer espécie viva de tédio e viva de lagosta e viva de outros crustáceos.
A melancolia e a água viva que queimava o coração de Girard quando pensava no belo corpo da Duquesa, dava a ele forças e pesadelo suficientes para mais e cada vez mais very much, so much! O muito estava sempre próximo dele, e o muito é muito íntimo do nada, embora apenas por parentesco, hein.
Girard tinha duas estratégias: fugir da obviedade sinistra de mentes trópicas. E a outra ele só condicionava pra quem tocasse "uma" pra ele. Quando questionado sobre sua condição de poeta, dizia-se louco. E quando questionado sobre sua loucura, dizia-se poeta sóbrio e com limites. Assim ele nunca era reconhecido. Podia disfarçar-se sempre de príncipe ou de moralista ou de sapo ou de arara ou de outros limites.
A Duquesa soube mais tarde da existência de Girard. Soube que ele tinha fama e desafiava a diabetes e o teorema de Talles. Era fanático e tinha vida interior e outros aspectos humanos. A Duquesa, dizendo isto e aquilo outro, de nada chegara a conclusão maldita.
- A Duquesa resolveu dar - disse o autor.
Decorou os seios com rosas brancas e vermelhas e sorvete blue ice e outras delícias. Os mamilos iam acelerando de tesão e girando igual pião por conta do calor do atrito e convenções físicas.
A luz forte do sol refletia os mamilos cada vez mais dilatados, como dois cérebros expostos e crus. Girard sentiu o chamado e eu pulei uns três parágrafos de preguiça. Girard correu e correu com sua calça de moleton e sua ereção infinita segurando um verso insano. Gritava qualquer coisa dissecando e amiúde vísceras fígado e coração de beterraba dizendo-se o último poeta puto inglês: How this spring of love. The uncertain of glory. which now shows all the beauty of the sun and by you and by too and by beautiful and urgh and bah a cloud takes all aways wonderful ia!
A Duquesa, do topo de seu castelo, apreciou a mata se abrindo e a luz do sol a escoltar o corte da terra. A Duquesa resolveu ir ao encontro de Girard e desceu as escadarias abreviando degraus freneticamente com os seios saltintantes - igual atriz pornô na versão Sex and City for man. Seu pai, senhor de idade de engenho e de menor, segurou a mão dos eunucos que, perdendo os olhos pelo nariz, visão dos seios e unhas da Duquesa, e outras semelhanças lógicas textuais de compreensão, não entenderam nada do que se passava ali abacaxi.
Girard gritava do lado de fora do castelo quando foi atacado por um soldado montado num travesti novaiorquino do século XXI e outros personagens de goiaba e woody Allen. Capturado, Girard foi levado ao Rei Roberto que o castrou e o promoveu príncipe dos eunucos. E seu pênis serviu como lição e homework. A partir dali, a Duquesa nunca mais usou sutien nem bebeu cerveja com stonehenge nem comeu comida dibuteco.
Já se passavam quatro dias e dois sonhos. Dois passaram voando e os outros dois tão depressa que pareciam o bastante, mas não eram, vou contar: eu dormia e era acordado por uma voz doce e misteriosa dizendo, "Mar, meu salgadinho".
A voz se instalava por inteiro, comprida e nua como o início da primavera. Sensual e bela, entrava pelos móveis e se misturava instalando-se no ar gélido da manhã e no frescor tímido e preguiçoso que se apoiava sobre meu travesseiro, "Mar, meu salgadinho". Um bocejo assim e ali, depois e mais dois, de maneira que a voz, feminina, jovial e vívida, como uma macieira no ápice da primavera, ia ficando cada vez mais atraente se comparada a uma janela no porão, ou um porão no meio da janela. "Mar, meu salgadinho".
Melodia, ah, essa melodia. Mas já eram dez horas da manhã e eu não levantava desse mundo nem por boceta alguma, embora aquela voz que saía agradável e soava com mesma intensidade, me fizesse remexer por debaixo dos lençóis, me fazendo acreditar que eu estava mais vivo que minha própria esperança por isso. "Mar, meu salgadinhôô". Essa entonação no último balbuciar deixou-me um pouco cismado. Descobri que não é pelo prazer que acordamos pra vida, e sim pela cisma. Tudo que fazemos é por cisma de alguma coisa ou por ensimesmado de coisas por si mesmas sombrio.
Tem sempre algo agressivo e hostil esperando por você no próximo parágrafo, ou não se engane tão facilmente. A indiferença pode levar o leitor a acreditar num desprezo do autor pela narração cretino-literária, que é a falta de caráter, concisão, coesão, lógica, picolé de morango e outras auto-deliberações que desrespeitam o receptor. Mas não, ainda não. Porque ainda estava na cama, embora aquela voz continuasse célere e cada vez mais firme. Tudo que é firme é rude. E toda mulher rude parece um pouco com o operador de elevador às sete da manhã. Ou com o padeiro bigodudo. A mulher tem que ter algo de vulnerável na voz. Um brilho ingênuo. Algo de inseguro, isso me parece muito feminino e, por isso, perfeito. É com essa premissa, além do machismo, que foi construído todo o romantismo do mundo.
"Porra, Mar", gritou a voz - se é que voz grita ou se existe mesmo cabeça de bacalhau -, até então era apenas uma voz que interagia lânguida e fina até se revelar grotesca. Olhei pro lado e a Paola continuava dormindo. "Juremar, seu filho da puta, eu sei que você está aí com uma vadia". Escutei a interpelação, já com o coração gelado e com os músculos contraídos. Pensei em levantar, mas ignorei meu medo. "Juremar, seu embucetado". Pensei que isso já estava ficando demais, embora eu desconheça a proporção do muito e da importância das coisas em demasia. A Paola tinha um sono leve de mulher encantada e podia acordar a qualquer momento. Então resolvi levantar e olhar pela janela. Era ela, a voz: "Juremar, você está me traindo com a Paola". "Não, é cisma sua", respondia com firmeza. "Essa vadia está na sua cama". "Não está. Escuta, Voz, se estivesse, seria apenas uma prova do seu amor, uma prova de superação; de razão: da razão pelo amor, do seu amor, do nosso amor por mim. E isso trazia sua segurança eternamente comigo. A superação da insegurança. A certeza da estima e do autocontrole. Ode ao legítimo e à liberdade.
Argumentei, pela janela, entrei em assuntos de conteúdo. Cheguei a consultar a arqueologia conceitualista da minha retórica, embora tarefa pouco atraente, nessas horas ela sempre ajuda. Todo pensamento consultado é um vício e vem acompanhado de expressões sem olhares dissimulados e com ausência de lábios cortados e maçãs rosadas. Reparem. Repitam algum conceito de Pierce ou Theodor Adorno (ou qualquer outro conceitualista que você conheça) de frente para o espelho e veja se você não fica parecendo um atendente de lanchonete dizendo que acabou o café. É igualzinho. Pelo menos para mim é tão óbvio e sensato, que pensar que outra pessoa não pense o mesmo é vestígio do declínio da civilização e perda total da polidez.
"Juremar..." "Jure..." a voz foi enfraquecendo até desaparecer! A voz foi vencida. Rendida pela palavra. A voz acuada pela interpretação. A voz indo embora, sendo dominada por um silêncio maníaco de glória e vitória. A voz sumindo aos poucos; como uma assombração derrotada, como uma assombração superada, como uma assombração que perdeu, que se fodeu, perplexa e assustada. A voz e o medo se foram, a cisma ficou. Paola continuou dormindo - a propósito, peladinha - e, femininamente, colocava as duas mãozinhas no cobertor, puxando-o graciosamente para cima, na tentativa de cobrir todo o rosto. Eu fiquei em pé, de costas pra rua, de costas para aquela janela, esperando o café chegar. Mas não tinha café.
Hoje é dia da justiça, e o que é a justiça? Justiça é uma mulher vendada segurando balança e espada. A balança é pra controlar o peso, a espada é pra amenizar a inveja do pênis e a venda... bem... eu prefiro a justiça de olhos bem abertos.
"O fim do Direito é a paz; o meio de atingi-lo, a luta. O Direito não é uma simples idéia, é força viva. Por isso a justiça sustenta, em uma das mãos, a balança, com que pesa o Direito, enquanto na outra segura a espada, por meio da qual se defende. A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é a impotência do Direito. Uma completa a outra. O verdadeiro Estado de Direito só pode existir quando a justiça bradir a espada com a mesma habilidade com que manipula a balança."
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez?
Vim pelo caminho do prazer. Pelo prazer fiquei, por ele prospectei. Jurei, vivi e até mataria - em nome da preguiça e da luxúria e sensações de lírios dos campos para os meus lábios, e deles pro coração. Esse prazer que mete medo e que por vezes xingam de alma.
Do outro lado do rio
Faz sol aqui deste lado do Rio. Você provavelmente dorme na sua cama que eu gosto e você não. Faz calor aqui deste lado do Rio. Você pensa, escreve, prospecta, imagina o que te faz mal e se a falta que sente é mesmo relevante. Há areia, mar e mulatas de biquini fio dental aqui deste lado do Rio. Você conversa com Proust e lembra das mulheres de Fabrice. Me encontra na beira. Me beija. De um lado o céu e o sal. Do outro, que se foda: o escambau. Me beija na beira. Que mais existe, besteira. Me inventa em uma canção e sorri. Espanta essa pata de siri, que nao larga de ti.
A condição humana nunca me espantou. Eu vejo um estudante todo atarefado, carregando uma pilha de livros que ele nunca gostaria de ter lido. Livros didáticos, Princípio da Filosofia, capítulo II, trecho: “procure uma pedra na beira do mar, sente e pense sobre o tempo”, ou Princípio da Sociologia, Capítulo III, trecho, “suba um morro, sente na calçada e pense no seu amiguinho do lado”, acho que deveriam ser assim os livros de filosofia e sociologia. Estudante sempre passa uma expressão de intelectualidade simples, satisfeita, sem nenhum constrangimento e cumpridor do seu papel, reduzido a satisfações e instintos de grupo.
Deve ser terrível visitar a cabeça de um estudante. E a cabeça de um estudante é sempre tão cordial e eufórica, expansiva e simpática, mas eu tenho asco só de olhar por fora. Nem sempre muito anfitriã são as mentes dos estudantes, sentem uma certa repulsa ao diálogo ou discussão. O jovem é sempre muito convicto, né? Eu sempre imagino o que um estudante carrega em sua mochila (fora os biscoitos recheados, a maçã, fanzines de algum protesto da moda, livros de capa vermelha e preta empoeirados de alguma biblioteca pública), será que eles carregam fotos de mulheres nuas, alguma droga sintética ou mesmo um livro do Proust?, não me espantaria. A condição humana não me espanta.
Para quebrar o astral eu sempre me pergunto qual sabor de sorvete que ele prefere. Vai que ele gosta do mesmo sabor que eu? Me forçaria a mudar de gosto e a rever toda a minha vida? Mas o estudante não tem cara que escolhe sabor de sorvete. Alguém que lê Marx e Weber e Proudhon e Malatesta e cita Che não é capaz de ter um sabor de sorvete preferido.
Em dias de prova na faculdade, eu sentava no canto da sala, abria algum livro de Hemingway e logo alguém vinha me perguntar, “vai cair na prova?”, eu olhava meio perdido, entretanto, via no rosto do pobre estudante ainda mais sem direção que o meu. Geralmente eu citava uma página, sei lá, página 156 de The Sum Also Rises, é um trecho importante, delimita uma das últimas boas narrações da literatura. O estudante logo se chocava, bruto e perplexo como chegara, saíra também.
Sou um homem que tenta atingir a civilidade. A condição humana nunca me espantou.. Sempre li o que eu quis. Aliás. Sempre fiz o que eu quis, na hora que eu quis. Ainda sim, por vezes, me vejo catatônico, com o olhar perdido no reflexo que invade as sombras dos transeuntes perfilados em direção ao cotidiano concreto de suas casinhas de homens. Eles andam depressa, inexoravelmente seguindo o fluxo.