Títulos para notícias fabulosas

 

I Notícia para raio-x de coluna cervical.

 

Tenho hoje outras idéias insanas, alguma coisa puta-bacana. Assim, imperfeita e profana, impura e puritana. Caguei-me todo de conselhos, sem me ater não me acatei, e assim fiquei com meu verbo fétido, fático, infraperfeito do pretérito . Eu vasculhei no vasto fundo entulho, não achei por acaso essa larva não... essa lacraia mórbida, essa pessoa - essa outra pessoa. Vida outra, entende? Que desalinho, por um anzol, por um fio...

 

II Notícia escrita com letra bio-lógica.

Linhas partilhadas de estórias não contadas as quais eu sempre pude ouvir no meu agito enquanto dormia aparentemente. Era uma festa sem convite, como um vestido sem corpo por falta de forma, algo fora de foco. Nenhuma cor em conteste, muito embora o contraste nu refletia semi-lua um pingo embrutalhado semi-lido. Uma aresta de palavra, haste, um enfeite qualquer na sílaba que lambeu a palavra e grudou no átomo.

 

III Notícia de uma crônica coronária

 

Não era uma estória colorida, tão pouco grafitada. Verde-lima talvez. Eu digo isso porque quase. E era só. Sempre foi o que era. Poria em tudo na minha vida desde aquele dia. Pagaria minhas contas com tudo de uma vez por todas. De todas poucas que eu já fiz, ainda que insistam, foram poucas, mas foram bastantes e intensas – e nunca mais me deixaram em paz.

 

 

IV Notícia de Jornal noticioso

 

Um título. Uma imagem. Um espetáculo! Mais uma remessa, por favor! Mais uma promessa e um pouco de lucro na segunda-feira. Um domingo sem pressa. Um som, uma sonata, uma orquestra na praça. Um candidato. Uma Bunda.Uma entrevista. Um grito. Uma observação. Um parêntese. Um cumprimento. Mais uma observação daquelas! Embrulho e jogo na calçada. Saio gritando feito um louco: uma notícia... uma notícia!!!

 

                                          Dublês de Poeta



Escrito por Dublês de Poeta às 15h45
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Journal de Lárvio Güker - outono de algum dia de 1979.

 

Hoje eu comecei um poema, comecei blefando-o. Como sempre, ganhei os primeiros neófitos alfabéticos. Um poema é um jogo de azar. O poeta é um viciado nesse perene purgatório. Eu não acredito em poetas que não joguem assim, que não se arriscam em grandes lances de bilhar. Assim como os jogadores, as cartas são distribuídas aos poetas, e a cada palavra o poeta espera um curinga. Mas o curinga não vem. E o poema ganha do poeta. Esse é o seu devaneio, essa é a sua sentença, sua redenção, seu gozo e sua catarse.

 

Esse é um poema dedicado. Não sei como posso ser tão escrupuloso ou prepotente para querer dedicar algo a alguém. Como um morcego sanguessuga que se deleita de ponta cabeça, deixando gotejar seu suor vermelho por entre os dentes, sua glória. Seu sacramento é antes de tudo, dedicado à sua vítima. Este sangue também é um poema dedicado para todas as pessoas que se arriscam todos os dias como morcegos. Eu lhes dou o meu sangue que um dia correu em outras vísceras, e que hoje me alimenta. Como um câncer, como um herpes. Eu tenho palavras, cuidado:

 

uma notícia...

uma notícia...

uma notícia...

uma notícia...

 

Era como se a notícia se noticiasse. Nada de escândalos – nenhuma novidade. Sem açoite nem desdém. Sem labuto algum, tão menos cínica. Como posso dizer? Porque não era nem boa nem má notícia. Era apenas, assim... uma notícia. Porém, uma notícia é uma notícia, meu amigo. Assim desse jeito seco, tépido. Que susto! Tirou-me toda a informação. Debulhou-se em véu despindo o meu conhecimento - de todo o acontecimento. A notícia se libertou do texto, um horror fora da margem, muito embora não cheirasse nem fedesse. No viés ela se desfez e virou de frente pra mim, no seu estado bruto, ela me disse:

 

uma notícia

uma notícia

uma notícia

uma notícia...

 

                                                                     Dublês de Poeta



Escrito por Dublês de Poeta às 01h21
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

dublesdepoeta@yahoo.com.br


 
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