Ode ao ódio
Eu odeio quem me lê. Mas odeio ainda mais quem não me lê. Odeio intermitentemente quem não me lê até o final. Mas sinto um ódio perene de quem me lê pela metade. Eu odeio quem me elogia. Odeio quem me critica. Odeio quem me admire. Odeio quem me corrija. Odeio ganhar, odeio perder e odeio ainda mais empatar. Eu odeio que rezem e orem por mim. Odeio que façam macumba ou mandinga pra mim. Eu odeio quem perde tempo pensando algo de mim. Odeio que pensem algo de bom ou de odioso sobre mim, odeio, eu odeio! Eu odeio gênios, paranormais, deuses, gurus, mestres, adivinhes, magos, bruxos, padres e pastores. Odeio todos os satanistas e demônios. Estou de saco cheio de filósofos, sábios e artistas –eles me fizeram odiar a arte e a filosofia. Odeio as pessoas talentosas. Eu odeio as pessoas normais. Odeio incessantemente pessoas demasiadamente normais, aliás, odeio tudo que em demasia, como odeio tudo que em escassez. Odeio pessoas educativas, prestativas, comunitárias, socialistas, anarquistas. Odeio o homem médio - o burocrático, o pai de família, o trabalhador sem talento, o preguiçoso criativo, odeio gente criativa. Mas odeio, odeio mesmo é o funcionário público e o morador de favela. Eu odeio quem ri à toa, odeio quem acha graça de mim. Eu Odeio Boiadeiros, sertanejos, fazendeiros, empregadas domésticas, vaqueiros, lixeiros, catadores de papel, ambulantes, pedintes, mendigos, doentes, gente fedida, pobres e analfabetos. Eu odeio grávidas, mães que perderam os filhos. Odeio gente depressiva. Odeio bebês. Odeio Poodle. Odeio gente amorosa, carinhosa. Odeio ciúme. Odeio sentimentos. Eu Odeio universitários, doutorandos, bacharéis, escritores, poetas, gente educada e gente gorda. Odeio policiais, advogados, índios, nacionalistas e débeis mentais - eu odeio, mas como odeio auxiliares de telemarketing, assessores em geral. Odeio atendentes, vendedores, balconistas, trocadores, taxistas - e odeio de todo o meu ódio as pessoas que trabalham em shoppings, bares, botecos, supermercados. Odeio quem é autônomo e odeio quem é dependente e vagabundo. Odeio que é auto-suficiente. Odeio quem acha, quem duvida, quem tem certeza, quem consegue provar, odeio tudo isso. Tenho ódio profundo de baleiros e sorveteiros e flanelinhas, ceguinhos e surdinhos e todos os diminutivinhos. E tenho um ódio de gente insegura, gente trapaceira, gente burra e gente inteligente. Mas tenho um ódio especialmente e muito específico a quem confessa que não teve oportunidade na vida. Eu odeio todos os presidentes de todas as repúblicas assim como todas as repúblicas e todos os republicanos. Odeio a guerra, a paz, a saúde, a enfermidade, o segredo, a verdade. Eu odeio retórica, pergunta, resposta. Eu odeio covardes, odeio mais ainda os heróis e ainda mais os anônimos. Eu odeio fazer ou deixar de fazer. Odeio ter que escolher. Odeio ter direitos e deveres. Odeio dormir, acordar, levantar e voltar a dormir. Eu odeio quem me odeia ou não me odeia. Odeio a indiferença e a bajulação de quem me odeia pouco ou quem me odeia muito. Odeio só de pensar que alguém está pensando nas coisas que odeio. Odeio tanto, mas tanto que sou capaz de odiar meu próprio ódio se por acaso achar completamente que odiar é admitir meu amor doentio por alguma coisa odiosa.
Assim, quem sabe você deixe de dar valores a valores que não existem mais e entre para esse novo mundo sem moral. Afinal, toda a sua educação, sua moral, sua ética, é uma forma de ódio enrustido.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
13h52
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