Estagiando na Cidade: Crônicas de uma estudante quase-caipira na cidade grande
Logo que saí do Ministério Público do 1o Tribunal do Júri de São Paulo, estava certa de que não existiria no mundo nada mais frustrante. Então comecei um estágio muito sério em um escritório muito interessante. Nas primeiras três semanas eu era pura empolgação. Convenci-me de que acabara minha depressão e de que toda treva na minha vida se transformara em lindos pores-do-sol (muitos sabem da minha afeição pelo pôr-do-sol e suas cores), nunca estive tão feliz e otimista em relação ao meu futuro. Depois da terceira semana percebi que advogar pode ser maravilhoso, desde que a gente feche os olhos durante o caminho. Não vou comentar sobre as ações judiciais, a questão fundamental neste momento é a brutalidade humana. É muito intrigante o Fórum João Mendes Jr. , situado em frente a Praça da Sé, é um local movimentado onde circulam muitos senhores respeitáveis dentro de seus ternos impecáveis e senhoras muito elegantes em saltos agulhas e escovas progressivas. Mas à parte disso, quase invisíveis, existem os meninos pobres cheirando cola, os pedintes, os miseráveis e seus filhos. Alguns muito inquietos e outros tantos prostrados na escadaria da Catedral da Sé enquanto soam os sinos das dezoito horas e fiéis rezam no altar pra algum DEUS. Na rua, pessoas pregam sobre o fim do mundo e o apocalipse, recitam poemas, gritam, cantam e falam palavrão. Pedem, correm, empurram... ninguém se olha, ninguém observa, não pensam, só agem. É nesse cenário de ações mecânicas que eu tento buscar inspiração poética. Infelizmente não posso nadar em açudes nem comer frutas colhidas no pé. Agora deixarei meus livros de poesia na prateleira e me dedicarei a contar aqui as minhas experiências bizarras no mundo real. A realidade pode massacrar o sonhador, ou não, quem sabe.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
16h39
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