Caiocito dá a sua última auto-entrevista ao Dublês. Mais uma forma de marketing? É a décima vez que ele dá a sua última auto-entrevista. O que interessa? Ele estava pronto para dizer algo, queria dizer, precisava dizer e... Antes de começar não deixou de brincar com meu nome: “Dagoberto, o importante é ter saúde”.
Reaparecendo para dizer que não aparecerá
Dagoberto: Então resolveu voltar?
Caiocito: Reapareci para dizer que desapareci. Não que eu pretendia ser visto, lido ou apreciado como uma aparição sedutora de sonhos eróticos adolescentes. Mas conheci uma bela anorexica, e o marido da minha amante é um militante de direita. Não gosta de roer o osso.
Dagoberto: Mas você não é de direita?
Caiocito: Sim, mas tem a direita de chifres, a de orelha de burro e de pata de porco. Eu sou da direita que mete o ferro em todo mundo.
Dagoberto: O motivo da aparição é mais uma vez para falar da esquerda?
Caiocito: Sois barbudos do meu pensamento, não me deixais quieto. Quis sair do meu reduto, também quero me divertir, ora bolas. E como o hábito de escrever é um vício, ainda que não acometido de ser um escriba viciado, reapareci. Não sei quando encaixar o verbo falar ou escrever, essas auto-entrevistas estão me deixando confuso.
Dagoberto: O que você anda sendo, lendo, falando, escrevendo...?
Caiocito: Tem muita gente viciada, lendo, sendo, falando e escrevendo coisas viciadas. A minha retina de íris verde está cansada disso, ela é uma sensível área de uma visão privilegiada - meu cortex visual. Porque eu tenho cortex visual, vocês tem zóios. Olho por cima para enxergar além, essa sempre foi minha brincadeira, dizer aos séquitos anões que o campo de visão aumenta quando se olha do alto.
Dagoberto: Você disse numa crônica que chegou tão perto da morte que ela não lhe reconheceu.
Caiocito: Eu vejo o pobre diabo bufão que virei, no sentido relegado desmotivacional. Ainda sim adoro viver nesse mundo cínico e charmoso. Não quero ser incluído nessa nova galeria catalogada de jovens homointelectus que está surgindo na internet vernácula via blog, podcast e youtube. Continuo escrevendo mal e roubando o tempo de vocês. Vesti um terno de casimira inglesa e uma calça de linho só para dizer isso.
Dagoberto... Está passando por um momento de renovação?
Caiocito: Na verdade eu só entrei aqui para xingar alguém. Alguém que personifica alguma juventude de alguma época qualquer que passou ou pode vir a ser de esquerda, revolucionário. Certas palavras são tão viciadas que deveriam ser proibidas pelos homens letrados deste país. A pessoa tinha que pagar cinqüenta reais para ter o direito de dizer que é revolucionária. Doar 1 kilo de livros perecíveis de Marx, Proudhon e outras merdas. Quer ser vanguardista sabichão? Passa cinquentinha e um kilo de livros perecíveis de esqueda.
Dagoberto: Fale mais sobre essas pessoas viciadas.
Caiocito: Acho que esgotou a catarse de hoje. Quer saber. Não vou escrever mais, não serei dublê de poeta se o mundo ficar tão real e sério. Sou um não-poeta e me mantenho afastado, de modo a continuar na minha superioridade.
Dagoberto Avelino da Silva
Escrito por
Dublês de Poeta
às
15h57
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