Le Chose Non-Dieu
Tenho sempre uma grande desconfiança quando me deparo com algum texto do Alexandre Soares Silva. Sou como Sêneca, comungo da mesma idéia de que “toda admiração é prejudicial ao espírito que admira”. Não é uma virtude de macho, de homem superior. Essa suspeita de que algo externo, extremamente excêntrico, irá abalar todo o meu conceito sobre Ego e sofisticação do pensamento, mesmo que abale para mais, me deixa com uma desconfiança mineira.
A Coisa Não-Deus não deve nada a nenhum grande romance de ficção brasileira contemporaneo. Julio Dapunt - personagem supostamente principal do livro -, estudante de letras da PUC, único espírito que não pode desfrutar do paraíso, por ser A Coisa Não-Deus, é um personagem quase desgraçado, que irá se cercar por diversos personagens angelicais hilários. Eu até tinha me preparado para escrever algo do tipo: “mas pelo menos o ASS se arriscou”, afinal de contas, alguém poderia escrever em blog - e escrever tão bem – e ao mesmo tempo escrever um livro - um livro tão bom? não é que sim! Estou fazendo observaçoes pobres e imediatistas, but who cares? I don’t. Ainda estou sobre o efeito de deslumbramento, o que ofusca e turva uma resenha mais crítica sobre o livro.
Mas não posso deixar de dizer que ASS é altamente descritivo e sucinto ao mesmo tempo. Que ele não perde tempo com definições viciadas e consegue descrever gestos semibreves com uma concisão literária sedutora completa de charme e de complexividade. No entanto, de um jeito tão caricatural, que só mesmo em paradisíaco entenderíamos. Ainda desconfio do sarcasmo cínico e sadismo crítico, e da mais alta distração da sua narrativa desprendida. Todo o seu estilozinho, usando diminutivos como intensificador do discurso mimado das palavras e frases estrangeiras sem tradução e citações de autores e menções de livros que já não são mais citados e já não são mais mencionados, fazem do livro um clássico.
E me diz agora você, depois de ler o livro, que graça teria escrever assim e não se pavonear? Que graça espiritual? Ser inteligente & requintado & esnobe & sibarita e não ufanar-se. “A experiência me ensinou que pavonear-se é a atividade mais constante e mais característica de todos os espíritos que significam alguma coisa”.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
13h37
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