Dissincronias dos Secos e Molhados
Acordei hoje mais cedo que a aurora e já fazia sol no Alasca. Para o meu espanto, depois de cinco minutos acordou o dia, espantado também, espantado comigo. Atrasado também estava o dia, atrasado comigo. É que ontem eu tinha levado o dia para o mal-caminho. Se hoje o dia lhe fizer algum mal, a culpa é toda minha. Mal lhes pergunto... o dia já chegou até aí?
O provérbio de hoje diz que o dia vai continuar chovendo: “beba a água da tua própria cisterna e das correntes do teu poço”. Sou bom interpretador bíblico. A revelação continua: “ele morrerá pela falta de disciplina, e , pela sua muita loucura, perdido, cambaleia”, Sexta-Feira é sempre assim, começa com muita água e termina perdidamente bêbada. Só o sertão é lúcido, os dias são sisudos. Lá o dia castiga.
Nunca precisei ler Guimarães Rosa para discordar que ele era um gênio. Nunca pensei que gênios se importavam com o sertão. Também nunca precisei ler Guimarães Rosa para saber que ele iria influenciar meu conceito de sertão. Sabe de uma coisa? NUNCA PRECISEI LER GUIMARÃES ROSA. Mais que uma confissão, isso é uma crítica “Paulo Franciseana as avessas”. Não tem um provérbio millôreano que diz: “jornalismo é oposição, o resto é lavanderia de secos e molhados”?
Jornalismo - Coisa que andam inventando desde o tempo que nasci. E que andam inventando desde o tempo que nasceu o jornalismo. Eu digo que é coisa de poodle com síndrome de vira-lata. Para não dizer síndrome de dál. Erro ortográfico não caracteriza preconceito, só ignorância. Se o contrário fosse, o sertão todo devia ser processado? Isso foi só uma pergunta.
E o Jornalismo em si?, essa é uma eterna pergunta. O jornalismo militante grita: “olhai o povo”, mas o povo a quem ele se refere é o seu amigo - filho da amiga de sua mãe, que toca numa banda de bairro da Zona Sul -, filho de família burguesa. Filho desempregado da burguesia que vem pedir emprego na porta aberta dos descontentes. Onde sempre cabe mais um poodle. Apesar da porta estar sempre aberta, tem uma placa de todo tamanho cujo dizeres são: “Aceitamos Mulherzinhas”.
Mês Passado acabou juntinho com o ano passado. Mas a coincidência maior é que parece que fez duzentos anos que Manoel de Barros fez noventa. E a Revista Caros Amigos que, cheia de poodle disfarçado de vira-lata, publicou três entrevistas inéditas do poeta vanguardista-primitivo.
Hoje eu estou seco, nenhum dia-qualquer vai me molhar. O resto é nota de rodapé.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
13h12
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