O-CONTRA (Esse hífen dá mais lirismo e refutação à minha pessoa)
A minha hifenização é a ligação que faço para criar algo que separa. A contra-gosto, mais para o sentido do-contra do que do gosto.
O hífen é um traço de união e também de desuni-ão. Sentença que o meu juízo-vindouro, salvo do contrário variado, deu por-causa-de...
Não levo/tenho mea-culpa. Tenho/Levo contra-deus, tenho contra-o-mundo. A barra é/foi uma escolha sua, o hífen é uma escolha minha.
As coisas conspiram a favor do meu contra-mim.
Não tenho contra-cheque ou a-favor-cheque. Meu xeque-mate não é contra-o-rei, mas contra o tabuleiro inteiro. Não estou além-mar, nem aquém-mar, sou vice-versa. Não deito nas entre-linhas, estou em pé parado para o óbvio.
O mesmo hífem que liga, separa - o hífen, amigo meu, é uma invenção poética, mais que gramática. E olha, nem sou tão-poeta. Talvez-poeta.
Mas tão-poeta, não, nunca. Talvez tão-poeta-não eu seja sempre. Me ocorre agora que esqueci de hifenizar meu/nosso dublês-de-poeta.
Quando acordo, não lembro sobre o que sonhei - supondo que ainda sonho -, arco-íris, gira-sol, roda-gigante. Não lembro, tenho falta de imaginação-sonhadora. Acordo já sendo do-contra, oras.
Vocês não sabem como é acordar-sendo-do-contra . Não, não é um simples estado de consciência ou espírito, é mais simplório. É algo mais duro. Não é nada feito de ectoplasma ou fóton. É denso e nebuloso. Ser-do-contra não é uma escolha, nem um processo natural. É algo poético, brutamente poético. Porque a involução é a razão da poesia. Sou tão prático quando imagino que sou poético...
Mas antes de tudo, sou tão-contra, mais do que, as vezes, do-contra. Se alguém na história foi mais do-contra do que eu, ele foi por destino, algo sobrenatural - ou por outra retórica de baixo valor. No meu caso é diferente: eu vim de um processo, de uma matéria; por uma fagulha de razão no meu gene, meu pensamento se converteu contra-tudo. Não sou um erro biológico, nem uma experiência de Deus. Sou O-CONTRA, em pessoa. Prazer...
Vocês não imaginam o que é chegar para um homem, erguer a mão em seu ombro e dizer: "olá, eu sou o-contra", e rindo, uma risada sarcástica, de quem revelou um mal pelo simples fato de zombar, vou saindo de cena. E o homem, atônito, vira para seu colega e diz: "eu vi O-CONTRA", como quem vê Deus, ou vê o Diabo.