Flávia.
Era um lugar frio e sombrio, reduto adolescente, reduto promíscuo. Não, não era uma faculdade. Era apenas o quarto de Flávia. Bem verdade que o tempo estava fechado, e Flávia, na correria de se arrumar para ir à faculdade esqueceu de colocar sutiã, vestiu-se ainda de pé, pegou sua camiseta da Hering e sua mochila no cabideiro, que tinha uma forma de... de cabideiro mesmo, de madeira. Prendeu os cabelos como de rabo de cavalo. Nem passou baton. Também não precisava, tinha os lábios bem representativos e volumosos. Flávia acendeu um cigarro antes de sair de casa. O ônibus estava passando na rua, Flávia assobiou para ele, jogou o cigarro fora - antes deu mais uma tragada -, e entrou. Um mendigo que sempre dormia no ponto de ônibus pegou o cigarro, cheirou o filtro e engoliu-o com a brasa ainda viva, acenando um tchau para a menina, sorrindo de boca aberta.
O ônibus estacionou, abriu as portas de trás e Flávia desceu, sozinha. Flávia sentou nos degraus da porta de uma loja fechada, em frente a faculdade, e começou a pensar em sua vida. Seus olhos azuis desbotavam. Desfez seu rabo de cavalo, tirou a gominha e a mirou numa poça dágua suja, riu por ter acertado. Levou a mão até o cabelo, brincou com a franja pra a frente e pra tráz, bagunçando, até soltá-la, ficando ligeiramente descabelada e linda.
Dois jovens passavam na calçada, cochichavam algo um para o outro, fitando Flávia de esguelha. Flávia era destemida e devolveu de soslaio o olhar. O primeiro rapaz, o mais franzino de cabelo cor de ranho, parou e sacou um canivete do bolso, "passa a resenha do Pierre Lévy se não eu lhe rasgo toda", Flávia engoliu a respiração. Era eminente o descontrole do rapaz, seu comparsa tentou abrandar, "não vamos lhe fazer mal, nós só queremos a resenha do Pierre Lévy", Flávia deu uma resposta oca, soletrando bem as palavras, "n-ã-o d-o-u". Depois da resposta, vinda daqueles lábios flavianos, qualquer bandido de bom caráter iria embora, não foi o caso do jovem de cabelo cor de ranho.
Ainda não chovia, quando o comparsa saiu andando. Antes de ir embora ele agachou-se, pegou uma pedra e acertou a cabeça de Flávia que, antes de cair no chão, foi segura pelos braços raquíticos do cabelo de ranho. O jovem gritava: "acorda, não morre". Enquanto o seu comparsa corria. De repente começou a chover, relampejava, trovoava e o escambau. A blusa de Flávia foi ficando rosa, da cor dos seus seios. O cabelo de ranho apertou os seios de Flávia gritanto para que ela não morresse. Ele apertava como quem fazia uma massagem cardíaca. Uma aglomeração de pessoas se formou, todos atônicos, olhando os seios de Flávia e o bicos dos seios de Flávia e o sague e o crânio aberto e etc. O Jovem de cabelo de ranho chorava e apertava os seios de Flávia, chorava e apertava os seios...
Escrito por
Dublês de Poeta
às
00h41
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