Ocupação.
Ando muito ocupado, dei um piparote no vidro do aquário para espantar o peixinho. Tenho Jogado poker online e sentido o efeito do clima no meu corpo, não que eu ache algum gosto naturalista nisso. Eu não acho nada. Num raro momento de folga, me aventurei a entrar no mundo obscuro de uma lanchonete. Por isso usei um dos meu disfarces - bermuda e chinelo. Nem por isso fiquei menos interessante, precisava de um bigode, mas achei exagero. Fui à lanchonete. Sentei e pedi qualquer coisa.
-Ô Sandra. Me serve qualquer coisa aí, por favor.
Isso deve irritar bastante as pessoas que trabalham em lanchonetes. Quando se quer qualquer coisa, não se quer nada. E até hoje as atendentes não sabem disso. Sandra vestia um avental colorido pelas frutas que batia no liquidificador e usava uma touca de cozinha bem apertada na cabeça, que deixava seu nariz enorme. Ela veio me atender com um sorriso tão diforme que o seu nariz empunha uma soberania ao resto da lanchonete.
- Oi, Caio, mas o que você quer?
- Pode ser aquilo lá - apontei. Parecia um pão-de-queijo, mas não jurava.
Entraram dois homens vestidos de terno barato e um moleque atrás. Os dois caras pediram pote de creme de açaí, um para cada, tomaram açaí, derramaram açaí no terno, pagaram o açaí, foram embora levando outro pote, e o moleque foi atrás. Achei curioso.
Veio um rapaz quase adentrando com a moto na lanchonete. Tirou o capacete, pediu três coxinhas de frango, uma empada e uma Coca. O rapaz olhou pra mim dizendo que era o almoço e sorriu. Suspeitei que ele poderia sentar na minha mesa - sempre penso no pior. Ele enfiou tudo dentro de uma mochila e se despediu de mim, balançando a cabeça. Eu devolvi o gesto e agradeci a Deus.
Acabei meu pão-de-queijo, mas continuei sentado. Aquele ambiente me distraía. Percebi que o dia no Brasil não rende. A primeira coisa que as pessoas faziam quando entravam na lanchonete era olhar para o relógio e dizer que faltam tantas para o almoço. No almoço, tudo pára no Brasil. O meio-dia é o ápice do sol, não do dia. Tudo para por uma hora ou duas. E quando o dia mal se veste, as pessoas já arrumam vários motivos para não vivê-lo.
Aqui no Brasil é tudo antes ou depois de meio-dia. Antes ou depois do Carnaval. Eu, que ando tão ocupado vivendo cada minuto de minha vida, fiquei ali sentado. O dia ia me vivendo, e assim eu achava que tinha que ser. Era um desconforto de algo fora do lugar no tempo errado, por isso era tudo incerto, imprevisto e surpresa.
Pensava tudo isso, mas não concluía. Agradeci à Sandra, saí da lanchonete e já me ocupei de novo.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
13h44
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