Só pra dizer oi
A garganta arranha, a cabeça dói, as costas castigam e há no peito uma dor dispersa. Devo estar com princípio de pneumonia, mas como boa teimosa que sou, só irei ao médico quando houver febre.
Na cidade de São Paulo faz 10 graus, e um vento e uma garoa e uma solidão. Esses dias em que o povo está tão cristão, dia em que a cidade parou para ver o Papa, eu continuo alheia aos acontecimentos e a minha vida dói. Eu estou a terminar prazos e ver autos. Dizem que vão ser suspensos os prazos, eu ignoro. A vida continua e a fé se esconde. Em mim só aquela sensação de carregar alguma coisa invisível, inútil e pesada pelo mundo afora, com alguma finalidade indizível e não conhecida. Passei a acreditar no amor e na felicidade e em alguma salvação pra melancolia, andei prestando atenção na cidade: é grande e é linda! No meio da miséria e da riqueza há coisas admiráveis na metrópole.
"Eu nada te peço a ti, tarde de maio, senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível, sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém que, precisamente, volve o rosto e passa... Outono é a estação em que ocorrem tais crises, e em maio, tantas vezes, morremos. Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera, já então espectrais sob o aveludado da casca, trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos, sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo. E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco. Não houve testemunha. Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos, quem reconhece o drama, quando sprecipita, sem máscara?" Carlos Drummond
Escrito por
Dublês de Poeta
às
19h19
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