“Dar exemplos é rir da capacidade mental dos outros” - Plí
Esse diálogo com a Plínia aconteceu no sábado passado, via msn. Há tempos não conversávamos. Sempre assistíamos filmes juntos, saíamos para um fast-food, ou para caçar poesia, jogávamos Poker Texas, bebíamos e, pasmem, até assistíamos TV. Mas nunca conversamos nada sério. Nesse sábado não foi diferente.
Dublê de Poeta - Olá, podemos conversar? Adoraria um dia poder te entrevistar, Plínia.
Plínia - Sobre temas obscuros? Não sou boa em temas obscuros. Ser entrevistada é algo obscuro. Mas minha vida é obscura e isso que importa. Minha Vida, minha ida e minha volta. Vamos lá.
DP – Reparou que criou-se quase um ditado popular, onde as pessoas dizem que nada tem muita importância? Você dá importância para alguma coisa?
Plí - O mais aceitável possível. O Resto é senso de humor. Ah, dou bastante importância as cantadas non senses, acho bonitinho.
DP - Você é a única mulher bonita e inteligente que eu conheço, e ao mesmo tempo é advogada. Convenhamos, fazer direito e ser inteligente são coisas paradoxais, incompatíveis.
Plí - Bater e soprar é alguma técnica pra deixar a pessoa mais ou menos constrangida?
No caso, quem tinha que detonar o entrevistado, sou eu. Mas não tem graça denotar pessoas inferiores como os jornalistas.
DP - O que te atinge Plínia, algo que altere seu alter ego?
Plí - Eu ando preocupada, vou deixar de ser estudante e de freqüentar aulas. A sala de aula é o único ambiente protegido (relativamente) e controlado onde eu posso manifestar a minha genialidade, no mundo real ninguém vai dar a mínima.
DP - Tem uma certa ordem no mundo acadêmico.
Plí - Sim. As pessoas triviais não gostam, acham extremamente desinteressante a universidade, os professores e as regras acadêmicas. Elas não abstraem aquilo. É difícil você encontrar uma pessoa autodidata que seja inteligente. A maioria é fútil. Mas é que se criou uma idéia contrária a isso, que pode ser extremamente maléfica e mentirosa.
DP - Mas ainda falta algum senso de humor nas pessoas. O Mundo corporativo deu muita seriedade à elas.
Plí - Mas alguma seriedade é bom, não o tempo todo. Rir de si mesmo é bom quando há comparações.
DP - Historicamente as extravagâncias tinham um caráter mais ideológico, hoje tudo é cometido por um poderzinho ali, um cargozinho aqui. Não se pratica o prazer pelo prazer, parafraseando Théophile Gautier.
Plí - Não se fazem mais surubas como antigamente. Todo mundo anda tenso pelas ruas. Mas ainda existem casas de swing. Você afirma bastante pra um entrevistador.
DP - Prometo rever isso. O entrevistador sempre quer ouvir algo que consiga abstrair.
Plí - Sempre suspeitei que todo tipo de entrevista sempre existe um bem bolado, uma combinação por debaixo dos panos.
DP - Quando está fazendo algo, pensa no que pode causar constrangimento?
Plí - Eu prefiro conversar sobre a verdade, a verdade dos filósofos...
DP - Não acha que a verdade deles trouxe uma herança maldita para a nossa civilização. Nunca mais teremos pensadores como Kant, Nietzsche, Spinoza, Descartes, Marx, Deleuze, Aristóteles. Platões ainda teremos de monte. Mas vamos viver eternamente nessa ideogafia.
Plí - Não entendi absolutamente nada do que disse... but, I love dead people. Eu, na verdade, gosto de todo tipo de intelectual: pensador, enganador, filósofo, escrevedor...
DP - Eu adoro quando você diz, "não tenho preconceitos literários", mesmo discordando disso.
Plí - Sim. Eu também sou contraditória como qualquer ser que pensa. E no fundo eu não admiro ninguém.
DP - Por isso não vale a pena ataca-los intelectualmente?
Plí - Eu não admiro biografias e estilos de vida, essas coisas. Mas claro que concordo que só vale a pena discutir sobre algo que tenha o mesmo nível intelectual que o seu.
DP- Eu admiro você.
Plí - Deve ser cultural, pelo fato de sermos irmãos. Isso pesa.
DP - Você sempre teve bom gosto nas suas escolhas ideológicas. Você foi a primeira da família, da geração de primos e irmãos a admitir sua posição de direita.
Plí - Tenho um comportamento de direita. Eu não entro na festa, mas não sou de moralizar. Mas eu não levo isso a sério, pelo contrário, creio que votar no Lula é uma manifestação genuína do bom humor.
DP - Você diz sempre que não tem preconceitos literários, mas e os musicais?
Plí - Sempre gostei de Jazz, Bossa Nova e alguma coisa que a MPB tem de triste... Eu sempre gostei de coisas que aguçassem minha melancolia. Mas não é bom se definir.
DP - Sim, entendo. Não queria perguntar nada sobre direito, acho que você iria odiar. Mesmo que pudesse falar bastante sobre direito. Mas se quiser falar alguma coisa...
Plí - Eu poderia falar sobre direito, mas sobre um fato. Sem exemplos. Na minha vida acadêmica, mais de 80% das aulas são baseadas no nada do exemplo, do esvaziamento do conceito em si. Eu sei que essa conversa é para o blog Dublês de Poeta. E por isso tenho que ser mais engraçadinha. Mas falando sério, eu não gosto de quem fica de caricatura com uma idéia. Dar exemplo é rir da capacidade mental dos outros.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
14h42
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