Mais Teorias de Francis Supernova (minha personal chic)
Já deram bom dia ao Willian Bonner? Francis Supernova não. Ela nem assiste televisão. Francis Supernova me disse algumas coisas que aumentaram minha intimidade com meu nariz: humor, Caiocito, não é rir do tombo da velhinha, mas rir de quem está rindo do tombo. Humor não é rir da ignorância, mas rir junto com ela. O humor, Caiocito, não é ver deus tomando um chute no saco, é saber que deus não tem testículos, e ainda assim rir.
Supernova é militante de causas próprias. Certo dia atacou os saudosistas dizendo qualquer coisa assim: esses manifestantes que atacam avalanches com bolinha de neve não sabem que alimentam ainda mais a avalanche? Eu jogava biscoito para o alto tentando acertar a minha boca, enquanto Supernova praguejava.
Ela odiava o ultra-romantismo, gostava de Duchamp e de outras porcarias. Convidou-me para ver II Viavolo Tentano no Palácio das Artes, por saber que durmo em óperas, days dreaming com minha amnésia. Concordamos em alguns pontos, um deles é o travessão, outro é o travesseiro e o outro é que se você quiser escrever alguma coisa que preste, não escreva.
“Quanto mais coisas envergonharem um homem, mais respeitável ele é." - George Bernard Shaw
Escrito por
Dublês de Poeta
às
02h41
[
]
[ envie
esta mensagem ]
|
As teorias de Francis Supernova
Mais terrível que teorias conspiratórias é a teoria que Francis Supernova tem sobre Minas Gerais e os mineiros. Terrivelmente atraente, devo admitir. Ela dizia que o sonho de todo mineiro é ir embora de Minas Gerais, e que isso era o primeiro passo para o sucesso.
Santos Dumont tinha um trauma tão grande de ter nascido mineiro, que quando criança planejou construir uma parafernália que o transportasse para bem longe de Minas Gerais. Mais tarde superou seu trauma de infância, foi à França e se transformou no pai da aviação.
Pelé foi outro, dizia Supernova: neguinho, feio e ainda mineiro. Pediu ao pai para jogar futebol em Santos, porque no Atlético ou no Cruzeiro não ia chegar a lugar nenhum. Foi pra Santos e reinventou o futebol. Hoje é o Rei desse esporte.
Juscelino Kubitschek odiava tanto ser mineiro que construiu uma cidade inteira só pra ele no planalto central e convocou um bocado de mineiro para fundar o que ele chamava de “aquilo que não é Minas Gerais”, mais tarde preferiu batizar a cidade com o nome de Distrito Federal.
Carlos Drummond de Andrade sempre foi funcionário público e poeta. Um grande poeta - mesmo quando vivia em Minas Gerais. Mas para se eternizar como o maior poeta brasileiro, tinha que morrer em Copacabana. “Itabira é só um quadro na parede, mas como dói”.
O mais desgraçado dos mineiros foi o Aleijadinho. Embora seja um dos maiores artistas brasileiros. Sua grande obra, Os Doze Profetas, jamais será reconhecida, simplesmente porque não tinha pernas nem braços para fugir de Minas Gerais.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
12h55
[
]
[ envie
esta mensagem ]
|
Weisse Katze.
Então Weisse Katze disse que não queria voltar para a porra da Alemanha, após ter produzido uma porcaria de Show com Lu di Shön em Belo Horizonte, que havia rendido a ele uns bons vinte mil reais.
- Você conhece Paris - perguntou Lu di Schön.
- Não - respondeu Katze, enquanto foliava uma revista de nu artístico, no meio da rua.
- Depois desse show, podemos ir para Paris, ou alugar um apartamento no Copacabana Palace. Insistia Lu.
Então Katze pensou que pouco importava Paris ou o Rio de Janeiro, enquanto sorria para baixo :(
Era o jeito dele sorrir. De tanto tentar imitar Chet Baker, de tanto imitá-lo, ele trasncendeu Woody Allen.
- Vai pensando nisso – dizia Lu, enquanto entrava no seu carro dando partida, a volver a cabeça pra fora da janela do carro cantando alto enquanto arrancava: Paris, Paris, teu rio é o rio Sena, Paris, Paris, tem loira mas não tens morena, tuas lindas mulheres de olhos zuis, tu és a cidade luz, Paris, Paris je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme... Vá pensando Katze, vá pensando.
Katze pensava... pensava que tudo aquilo estava a ficar real demais, ao ponto de ficar surreal e transcender. Abriu o portão de casa e percebeu que Lu di Shon havia deixado cair suas tremas ali.. Ele as pegou e pendurou-as na parede do seu quartö.
Eu quero algo mais distante que a França – pensava Katze -, mais luminoso que Paris. Mais alto que o Cristo Redentor. Vocês não entendem, não quero pão francês nem Pão de Açúcar. Então Weisse Katze começou a recitar um poema seu: guardo no íntimo, nostalgia e sonhos alquebrados, um coração mitigado, foi longe demais... longe demais, destruindo as pontes que ficaram para trás, subtraída realidade, agora é tarde.
Weisse Katze se imaginou pisando na cabeça de Jacó e escalando os pés de Jesus, a segurar nas barbas de Salomão como cipó para dar impulsão até chegar a Deus. Deus era Zíris Guidun, deusa da mitologia brasileira. Zirís era linda, tinha dois olhos rosados nos seios pouco cobertos por ramos e fumava Marllboro light enquanto se banhava na cachoeira. Jesus, atento, olhava sua mãe, não gostava das marcas de cigarro da Philip Morris, preferia os cigarros da Souza Cruz. Jesus foi assistir televisão e deixou Zíris com Katze.
- Por que você está deprimido, Katze? – Perguntou de costas a ele, enquanto mergulhava nas águas divinas fazendo bolhas de fumaça em formato de clave de sol.
- Não estou deprimido, Zíris, sou um poeta brasileiro, apesar dessa cara de gangster italiano sem família. Isso dói, dói tanto que transcende. A razão pela qual eu estou aqui é a razão pela qual, a razão pela qual... - e começou a repetir isso várias vezes até retomar seu discurso inicial –, Então eu inventei a tristeza, eu criei você, Zíris, agora você vive em mim como um câncer benigno, mas ainda sim é um câncer, nesse coração que é o maior dos nossos tumores. E que não pára de crescer, basta uma palavra e ele se transforma em mil sentimentos viajando mais rápido que a luz ou o dedilhado de Hendrix. Eu não agüento mais. Quando pulsava somente Chet Baker eu ainda tinha algum controle. Mas agora não, Zíris. Não sabia do poder que tinha minhas invenções, até onde elas me levariam. Eu queria morrer, mas seria apenas um inventor da minha morte. O que me resta agora é viver minha vida, todo mundo tem sua ilusão, a vida é uma ilusão particular.
- Katze, vai se fuder. Eu não gosto de poesia, não adianta tentar me seduzir. Eu não vou dar pra você só porque você é poeta. Eu sei que você veio aqui só por isso.
Aquilo deixou Katze enfurecido, Katze era poeta, e nem as deusas entendiam os poetas. De maneira que Katze voltou a ser Weisse Katze, mas apenas por dois minutos, porque era insuportável ser Katze, tão insuportável... mas tão insuportável que transcendia.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
16h27
[
]
[ envie
esta mensagem ]
|
Le Nom Son
Ela tocou os lábios dele e percebeu que tinha a mesma temperatura que os seus. Sua íris ia mudando de cor, como o céu a fechar em nuvens negras, era sua lente que tinha caído no chão. Perdia ali dois graus de astigmatismo, nem por isso deixou de enxergar qualquer coisa de secreto que a brisa gélida daquela noite desatenta oferecia. Alguma coisa de distante e repleto. Chovia, e o frio da chuva prolonga ainda mais a noite, mais que o próprio frio do inverno.
Então ele cantou Charles Trenet até que o lusco-fusco de la mer invadisse os olhos dela. Resenhou trechos de sua vida bem ali na Praça da Liberdade, ofereceu pontos de vista sobre Bertolucci e Woody Allen sem nada em troca, além da imaginação de vê-la nua. Ele a via sem que ela pudesse imaginar, embora ela imaginasse o mesmo.

A partir daquele dia ela comprou lentes azuis, pulou de bungee jump, bebeu vinho com chuva, tomou banho de porta aberta, fez tatuagem daquela flor que ela não sabia o nome. Publicou seus versos em um blog, fez curso de francês e teatro e trancou a faculdade de comunicação. Foi ao Cartório mudar de nome. Fez depilação a laser e topless na praia. Certa noite se jogou na frente do metrô perto da Estação Lagoinha, arrependida de não ter dado pra ele aquela noite.

Escrito por
Dublês de Poeta
às
21h30
[
]
[ envie
esta mensagem ]
|