Weisse Katze.

 

Então Weisse Katze disse que não queria voltar para a porra da Alemanha, após ter produzido uma porcaria de Show com Lu di Shön em Belo Horizonte, que havia rendido a ele uns bons vinte mil reais.

 - Você conhece Paris - perguntou Lu di Schön.

 - Não - respondeu Katze, enquanto foliava uma revista de nu artístico, no meio da rua. 

 - Depois desse show, podemos ir para Paris, ou alugar um apartamento no Copacabana Palace. Insistia Lu.

Então Katze pensou que pouco importava Paris ou o Rio de Janeiro, enquanto sorria para baixo :(

Era o jeito dele sorrir. De tanto tentar imitar Chet Baker, de tanto imitá-lo, ele trasncendeu Woody Allen.

 - Vai pensando nisso – dizia Lu, enquanto entrava no seu carro dando partida, a volver a cabeça pra fora da janela do carro cantando alto enquanto arrancava: Paris, Paris, teu rio é o rio Sena, Paris, Paris, tem loira mas não tens morena, tuas lindas mulheres de olhos zuis, tu és a cidade luz, Paris, Paris je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme... Vá pensando Katze, vá pensando.

 

Katze pensava... pensava que tudo aquilo estava a ficar real demais, ao ponto de ficar surreal e transcender. Abriu o portão de casa e percebeu que Lu di Shon havia deixado cair suas tremas ali..  Ele as pegou e pendurou-as na parede do seu quartö.

 

Eu quero algo mais distante que a França – pensava Katze -, mais luminoso que Paris. Mais alto que o Cristo Redentor. Vocês não entendem, não quero pão francês nem Pão de Açúcar. Então Weisse Katze começou a recitar um poema seu: guardo no íntimo, nostalgia e sonhos alquebrados, um coração mitigado, foi longe demais... longe demais, destruindo as pontes que ficaram para trás, subtraída realidade, agora é tarde.

 

Weisse Katze se imaginou pisando na cabeça de Jacó e escalando os pés de Jesus, a segurar nas barbas de Salomão como cipó para dar impulsão até chegar a Deus. Deus era Zíris Guidun, deusa da mitologia brasileira. Zirís era linda, tinha dois olhos rosados nos seios pouco cobertos por ramos e fumava Marllboro light enquanto se banhava na cachoeira. Jesus, atento, olhava sua mãe, não gostava das marcas de cigarro da Philip Morris, preferia os cigarros da Souza Cruz. Jesus foi assistir televisão e deixou Zíris com Katze.

 

 - Por que você está deprimido, Katze? – Perguntou de costas a ele, enquanto mergulhava nas águas divinas fazendo bolhas de fumaça em formato de clave de sol.

- Não estou deprimido, Zíris, sou um poeta brasileiro, apesar dessa cara de gangster italiano sem família. Isso dói, dói tanto que transcende. A razão pela qual eu estou aqui é a razão pela qual, a razão pela qual... - e começou a repetir isso várias vezes até retomar seu discurso inicial –, Então eu inventei a tristeza, eu criei você, Zíris, agora você vive em mim como um câncer benigno, mas ainda sim é um câncer, nesse coração que é o maior dos nossos tumores. E que não pára de crescer, basta uma palavra e ele se transforma em mil sentimentos viajando mais rápido que a luz ou o dedilhado de Hendrix. Eu não agüento mais. Quando pulsava somente Chet Baker eu ainda tinha algum controle. Mas agora não, Zíris. Não sabia do poder que tinha minhas invenções, até onde elas me levariam. Eu queria morrer, mas seria apenas um inventor da minha morte. O que me resta agora é viver minha vida, todo mundo tem sua ilusão, a vida é uma ilusão particular.

 

- Katze, vai se fuder. Eu não gosto de poesia, não adianta tentar me seduzir. Eu não vou dar pra você só porque você é poeta. Eu sei que você veio aqui só por isso.

Aquilo deixou Katze enfurecido, Katze era poeta, e nem as deusas entendiam os poetas.  De maneira que Katze voltou a ser Weisse Katze, mas apenas por dois minutos, porque era insuportável ser Katze, tão insuportável... mas tão insuportável que transcendia.



Escrito por Dublês de Poeta às 16h27
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

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