Diálogo com o Poeta
Tentei escrever um diálogo. Desisti. Disseram que era muito difícil, eu primo pelo fácil. Não obstante, - e ele tão obstante e não obstante (pronto, não dá para escrever essa palavra sem que você perca subitamente a vontade de escrever). O diálogo em si também é enfadonho, cria um asco terrível, nos deixa com hematomas terríveis de melancolia, além de dar faringite, cárie e uma febre amarela terrível.
Você começa a perceber que seu personagem debate com o sofisticado do seu pensamento. As pessoas que não possuem tal sofisticação imploram por um significante inferior que dê a elas esse contraponto. É uma barganha na qual, eu, tomado de escritor, não consigo aquém concebê-la. Sabendo que meu alter-ego é o mediador-mor dessa discussão, na qual ele não suportaria nem a minha nova tese sobre o pequeno pônei.
Mas os aparelhos danificados de televisão e rádio eram antiguidades que compunham o cenário decorativo da modernidade, dizia a cabrocha. Manoel de Barros sentou no colo de Guimarães Rosa, o que rendeu a ele um lugarzinho no Pantanal. Tudo aumenta, aumenta a crença e com ela a descrença persuasiva. O poeta é toda essa neblina: um tradutor da contradição, um mentiroso, a mão que balança o berço. Um orador mudo, um clichê, uma breguice, cheiro de coisa morta no século XIX, um retrato de família - todos fazendo cara de retrato de família, confiram.
Era um boiadeiro, fumando cigarro mentolado, chupando pirulito de língua azul de ray-ban e celular. Um gangster italiano traficando suvenirs sem charuto e sem cara de gangster italiano traficando suvenirs sem charuto. Um meliante sem época, um blefador dissuadindo sua moçoila. É isso. Para mim faz sentido. Para mim faz sentido meu samurai, meu orixá e minhas três guias de nanã trancafiados no meu agnosticismo sem dentes. Tudo é tão simples como o plug e a tomada. Não tem nada indigno nesse mundo. Jesus deu a mão a Madalena. É como deve ser: cru, pela falta de retórica. Não foi pela falta de retórica que nasceu a crueldade?
Escrito por
Dublês de Poeta
às
07h27
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dois links do Dublês que eu gosto.
Ode ao Ódio
Soneto da ìndia
e mais..
Um aforismo carnívoro e um aforismo vegetariano
Os vegetarianos tinham que extrair seus dentes caninos, que para eles é só um apêndice. Isso sim seria subversivo. Um vegetariano com todos os dentes deveria ser visto como um herege.
O homem só come carne porque tem um cérebro mais "desenvolvido" e uma mente que nubla os instintos. E nesse caso, o que deveria ser chamado de apêndice é o cérebro.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
05h40
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