Expiação à bolonhesa e cheddar

 

 

eu sofro de burrice.

sofro de falta de empatia,

eloqüência e percepção

de realidade.

sofro de cinismo

sofro de caráter.

sofro de cortar meus versos.

     de admoestar palavras.

     de cara lavada.

sofro de ausência, da absurda

e melancólica ausência.

e a presença da vida na condolência da morte.

sofro da carne, ossos e vísceras

de ser tão óbvio, tão óbvio.

sofro de abuso

sofro longe.

sofro como um sopro.

homogenia 

homofobia

e companhia.

sofro de estultícia e bazófia.

sofro de falta e pela falta.

ensinar haver conseguido.

sinestesia

ermo

berço

sofro da falta de referência e excesso,

     premonição das horas e dos dias

     de um mundo de gesto sólido

     e ateu.



Escrito por Dublês de Poeta às 12h28
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A expansão de Francis Supernova e o eu

 

 

Foi na casa de Francis Supernova que ela me disse que a vida era um provérbio aliciado de intensidade. E que nossas vidas deveriam ser marcadas por catástrofes rodrigueanas: meu destino é pecar, antes pecar do que não ter destino, Caiocito, dizia.

 

Francis chamou-me para o café da manhã. Ela pronunciava gemidos e gestos obscenos em línguas, e fazia uma pequena oração com os seios mexendo-os de um lado a outro antes de começar a comer: água mole em pedra dura tanto bate até que fura, amém. Eu concordei. Quem sou eu para discordar das atitudes de Francis Supernova. Eu que sempre preguei que a discussão sobre ética comportamental era a única virtude que os idiotas possuíam. E o que isso tinha a ver com a refeição do café da manhã? Nenhuma. É tudo farinha do mesmo saco. Não é a farinha que dá a liga aos alimentos dos pobres?

 

Descobri meu lado concreto: passei a arremessar sucos de beterraba na parede e sovar a manga nos seios de Francis, imaginando meus dentes cravados em seu decote. Pedi a ela que se esfregasse na parede, o que ela fez sem hesitação. Senti-me um Pollock naturalista. Francis que tinha mania de cuspir nos olhos das suas visitas. Por isso sempre a visitei de óculos escuros. O que me impediu de vê-la passando meleca no meu pão antes do café.

 

Então Francis sentou no meu colo e começou a se bulinar. E aquilo acabou em lágrimas de prazer, implores e súplicas de fim de mundo. Eu sentia uma larva quente saindo dos lábios dela, daqueles lábios sem calcinha, a textura linfática da destruição. Ao fechar das pernas ela estava lagrimada. Suas veias pulsantes, no meio de um coração sem calcinha.

 

Francis era intransigente quando o assunto era sexo. Eu comia pão com manteiga enquanto Francis delirava cheia de beterraba e manga pelo corpo. Ela xingava palavrões e dizia que me amava porque eu era insensível e tinha o charme de um artista fracassado. Eu pedi a ela que repetisse aquilo, e gozamos juntos.



Escrito por Dublês de Poeta às 23h35
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Verde

Escrevi uma casinha morena tal qual cor de neblina com telhas escarlates no alto da colina. Porque lá mora o vento que vai bagunçar seu talento. E quando leres o conto da casinha morena, com os olhos tão presos no canto, igual criança pequena, sinta-se apenas. E você vem e me pede um poema. Mas não se prenda ao acaso, caso eu saia de casa no primeiro torpor.

E como um nódulo no peito sairá tal poema de amor. Mas veja que coincidência, o tempo fechou. Pudera, desconfiada saliência, a casa pequena inclinou. Será que foram as tempestades inebriantes, ou a falta de agouro de asa veloz que deixou o ar fresco como o vinho, daquela adega que cabia só nós dois? Que desfez o sentido num vestido vermelho e calou a preguiça num beijo arteiro, traiçoeiro que me desmanchou.

E o que agora eu peço com o tom inverso, deixa que o resto vem num ensejo ou numa premissa de batom. Mas por favor, não fique na casinha morena, pois ela não é sua, ela não é de ninguém. 



Escrito por Dublês de Poeta às 20h45
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In Praesentia numa mesa

 

É isso que as pessoas inteligentes não tem, pela linearidade de possuírem apenas uma personalidade, e manter esse tipo de character sociale, de status quo constrangedor. O fato de eu não ter um controle remoto para mudá-las de canal, me deixa arrependido de ter saído de casa. A figura está ali, em estado anedótico, se exibindo. Não dá para fazer cara de testa, porque as pessoas na mesa compactuam, por educação, daquele humor involuntário. Ou por acharem que aquilo deve ser mesmo interessante: passou no Discovery Channel ou no National Geografic. Afinal, o que desconheço deve ser mais interessante. E o sujeito se explica e dá exemplos e etc. É mister, é épico.

 

Las personas querem ser verdadeiras e populares. Se o essencial da sua vida se torna público, Joe, ali você acabou de perder toda a sua existência. A necessidade de se ser interessante e se mostrar como tal é facilmente percebido pelo esforço dos músculos faciais. Eu consigo macular, mas de repente me vejo discutindo filosofia com meu copo de whisky Ballantines. No entanto, fica intrínseco entre minha sobrancelha e minha ruga de expressão.

 

Os mais catedráticos e estruturados desde as mentes mais livres (me pergunto), será que elas não compreendem o poço sem fundo do silêncio e do desinteresse ao comentar sobre Sartre ou viagens antropológicas ao Afeganistão num restaurante ou numa praça, ou, seilá onde? Eu fico horas treinando no espelho pra expressar certo charme e leveza, e o lenço da minha imaginação cai em cima da minha sopa quando penso que ainda existem pessoas que não ligam para a beleza dos lugares e das coisas e das pessoas. E não conseguem parar de citar Theodor Adorno, Noam Chomsky, Sartre, Luiz Fernando Veríssimo, literatura Brasileira e MPB.

 

Quando Henry Miller disse que um escritor não é um escritor se ele não consegue articular palavras diante de uma mesa com pessoas, ele diz isso num châtaeu em Paris, no sentido de hôtem particulier – puteiro mesmo. Compreensível em Trópico de Câncer. Ele pode escrever isso. Mas você, num restaurante temático ou de etiqueta - seja lá em que mesa você estiver vomitando cultura, non! (cultura made in editora abril ou canal futura – não! pode agir assim, não) meu amigo, não, você não pode dizer isso, please.

Escrito por Dublês de Poeta às 08h41
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Diálogo com o Poeta

 

Tentei escrever um diálogo. Desisti. Disseram que era muito difícil, eu primo pelo fácil. Não obstante, - e ele tão obstante e não obstante (pronto, não dá para escrever essa palavra sem que você perca subitamente a vontade de escrever). O diálogo em si também é enfadonho, cria um asco terrível, nos deixa com hematomas terríveis de melancolia, além de dar faringite, cárie e uma febre amarela terrível. 

 

Você começa a perceber que seu personagem debate com o sofisticado do seu pensamento. As pessoas que não possuem tal sofisticação imploram por um significante inferior que dê a elas esse contraponto. É uma barganha na qual, eu, tomado de escritor, não consigo aquém concebê-la. Sabendo que meu alter-ego é o mediador-mor dessa discussão,  na qual ele não suportaria nem a minha nova tese sobre o pequeno pônei.

 

Mas os aparelhos danificados de televisão e rádio eram antiguidades que compunham o cenário decorativo da modernidade, dizia a cabrocha. Manoel de Barros sentou no colo de Guimarães Rosa, o que rendeu a ele um lugarzinho no Pantanal. Tudo aumenta, aumenta a crença e com ela a descrença persuasiva. O poeta é toda essa neblina: um tradutor da contradição, um mentiroso, a mão que balança o berço. Um orador mudo, um clichê, uma breguice, cheiro de coisa morta no século XIX, um retrato de família - todos fazendo cara de retrato de família, confiram.

 

Era um boiadeiro, fumando cigarro mentolado, chupando pirulito de língua azul de ray-ban e celular. Um gangster italiano traficando suvenirs sem charuto e sem cara de gangster italiano traficando suvenirs sem charuto. Um meliante sem época, um blefador dissuadindo sua moçoila. É isso. Para mim faz sentido. Para mim faz sentido meu samurai, meu orixá e minhas três guias de nanã trancafiados no meu agnosticismo sem dentes. Tudo é tão simples como o plug e a tomada. Não tem nada indigno nesse mundo. Jesus deu a mão a Madalena. É como deve ser: cru, pela falta de retórica. Não foi pela falta de retórica que nasceu a crueldade?



Escrito por Dublês de Poeta às 07h27
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

dublesdepoeta@yahoo.com.br


 
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