In Praesentia numa mesa
É isso que as pessoas inteligentes não tem, pela linearidade de possuírem apenas uma personalidade, e manter esse tipo de character sociale, de status quo constrangedor. O fato de eu não ter um controle remoto para mudá-las de canal, me deixa arrependido de ter saído de casa. A figura está ali, em estado anedótico, se exibindo. Não dá para fazer cara de testa, porque as pessoas na mesa compactuam, por educação, daquele humor involuntário. Ou por acharem que aquilo deve ser mesmo interessante: passou no Discovery Channel ou no National Geografic. Afinal, o que desconheço deve ser mais interessante. E o sujeito se explica e dá exemplos e etc. É mister, é épico.
Las personas querem ser verdadeiras e populares. Se o essencial da sua vida se torna público, Joe, ali você acabou de perder toda a sua existência. A necessidade de se ser interessante e se mostrar como tal é facilmente percebido pelo esforço dos músculos faciais. Eu consigo macular, mas de repente me vejo discutindo filosofia com meu copo de whisky Ballantines. No entanto, fica intrínseco entre minha sobrancelha e minha ruga de expressão.
Os mais catedráticos e estruturados desde as mentes mais livres (me pergunto), será que elas não compreendem o poço sem fundo do silêncio e do desinteresse ao comentar sobre Sartre ou viagens antropológicas ao Afeganistão num restaurante ou numa praça, ou, seilá onde? Eu fico horas treinando no espelho pra expressar certo charme e leveza, e o lenço da minha imaginação cai em cima da minha sopa quando penso que ainda existem pessoas que não ligam para a beleza dos lugares e das coisas e das pessoas. E não conseguem parar de citar Theodor Adorno, Noam Chomsky, Sartre, Luiz Fernando Veríssimo, literatura Brasileira e MPB.
Quando Henry Miller disse que um escritor não é um escritor se ele não consegue articular palavras diante de uma mesa com pessoas, ele diz isso num châtaeu em Paris, no sentido de hôtem particulier – puteiro mesmo. Compreensível em Trópico de Câncer. Ele pode escrever isso. Mas você, num restaurante temático ou de etiqueta - seja lá em que mesa você estiver vomitando cultura, non! (cultura made in editora abril ou canal futura – não! pode agir assim, não) meu amigo, não, você não pode dizer isso, please.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
08h41
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