Deus é um bundão preguiçoso Essa frase é do meu pai. Quando eu era criança trabalhava com ele de segunda a segunda numa Banca de Revista - agradeço à Editora Abril e Escala por todo meu conhecimento filosófico - voltando à conversa sobre meu labuto infantil, cansado, pedi ao meu progenitor que me desse um dia de descanso durante a semana. Dei a argumentação de que até Deus descansou no sétimo dia, na qual meu pai replicou: Deus é um bundão preguiçoso. Foi aí que se deu minha primeira implicância com Deus. E é verdade. Nem que Deus não fosse tão preguiçoso assim. Mas convenhamos, Deus foi pouco criativo. Pudera, como alguém criaria algo que prestasse no mundo sem referências como as de Shakespeare, Bach, Goethe, Flaubert, Homero, Da Vinci e etc? Tudo que ele criava ele achava bom. Tirando a mulher, Deus fez poucas coisas bonitas. Mar, joaninhas, borboletas, passarinhos, arco-íris. Deus é um cafona. E os pêlos no corpo? Deus é antiestético. Deus foi pouco imaginativo; criou apenas quatro estações, apenas quatro elementos. O estado natural das coisas é a manifestação total de falta de criatividade de Deus. Eu não sou ateu. Até acredito que Deus exista, apenas não gosto dele. Prefiro rezar agradecendo Rimbaud a rezar agradecendo por Deus. Rimbaud me deu muito mais coisas na vida. Drummond nunca me negou nada. A Literatura inglesa é meu velho testamento. Os poetas franceses me batizaram. E até Hoje eu converso com Nietzsche. Tem pessoas que não acreditam que eu converso com Nietzsche. Essas mesmas pessoas vem me dizer que Deus disse a elas isso ou aquilo em orações. Poxa, Deus, aquele preguiçoso, se ocupou com você, porque Nietzsche, baudelaire, Rimbaud, Proust, não podem ter um tempinho comigo?
Escrito por
Dublês de Poeta
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17h00
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Gauche et veule
Paris é uma Festa, escreveu Hemingway. Mas São Paulo é aquele lugar que sempre paramos depois das festas. São Paulo tem Lábios de outdoors estampados, que cessam em lânguidos olhares o subliminar convite de um sorriso galante que insiste em se alojar numa face impudica.
Aprendi que poetas nunca pagam a conta. Percebi que boca não tem costura, e minha etiqueta é mais embaixo. Posso emitir mais meia-dúzia de palavras destiladas e aprazíveis que soam como coquetéis caribenhos, em troca de uma carência, babe.
Por algum momento, aqui em sampa, me senti enlevado por uma pomba urbana vestida de albatroz. Eu sempre me arrependo quando faço a coisa certa. Não foi o caso, nesse dia eu acordei com a consciência tranqüila, leve.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
04h38
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