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Hey Jude, dont make it bad
Eu estou internado em sua mente. Quando você me der alta, no alto do cume daquela montanha, no cimo do Evetest do Jequitinhonha, no topo do mundo de um quarteirão qualquer, eu poderei voltar para o Saara e fazer chover um pouquinho. Transformar as dunas em Estrada Real, em Anéis Rodoviários e retornos para nossos planetinhas jecas. Serei superficial e barato, afundarei meu pé na lama de qualquer filosofia de musgos, de ortópteros ou de gente que não faz a barba e nem se depila. Como aquelas pessoas ali da foto. Perpassarei discussões sobre cinema, literatura, artes menores, maiores, medianas e iguais. E daquelas dez canções, dez atrizes e dez nomes franceses que decorei descompromissado e promíscuo intelectualmente. E erguerei, num campo minado de flores, uma haste de pau, uma bandeira de guerra e um beijo complacente.
Paralítico, agora, como o tempo que ignora fututo e passado. O eterno retorno chegou de táxi, de um lugar de onde ele nunca saiu. Só existe o agora, nessa tela azul: minha escrita down, minha duvidosa existência surreal. Seu ½ sorriso constrangido, de quem finge saber um pouco mais do que é a vida, na presunção e arrogância que todo ser humano tem diante dela. Diante do outro. “ai, mamãe, eu não entendo aquele rapaz”. Por que nascer tão lindo e morto. Por que gentil, se egotista. Por que egotista se gentil?
Eu sou um teaser. Um stripteaser, um crush por uma força desproporcional. Talvez eu seja, ou me faça crer, arredio às vezes como um menino mimado, simplório e raso, como... seilá, uma palestra do Deleuze, vai. Convencer da superioridade, do sangue, da morte ou do arrepio. Do gozo contido que demora chegar. Das grandes façanhas do homem e suas trapaças pela história a dentro. De tudo que foi importante e que eu ignoro e esqueço a cada dia. Eu estou internado em sua mente. Escuto o balbuciar da sua fala, contente por eu ainda estar ali. E você some, desaparece como um livro de Proust ou como as mulheres de Fabrice que esqueci na praça ou no banco de trás de um carro. - Mamãe, meu Deus, esqueci duas loiras gostosas de seios lindos e rosados no banco de trás de um carro. - Calma, Zecão, e a Pipa? E a Fê e a Ju e a Cris? Calma, Zecão, quem te ama mesmo é a Pipa, embora compulsiva e chata e com aquele olhar de maria mijona, ela é bem contemporânea e educadinha.
Enquanto você pensar em mim, Pipa, eu continuarei internado. Vejo os olhares atentos e curiosos das suas amiguinhas. Você me descreve, fala de mim para elas. Comenta se meu pau é grande ou pequeno, se brochei ou se fui viril, se sou magro ou forte. Se meus olhos são verdes ou azuis. Que você sente muito tesão e medo. Que você é uma menininha e está insegura. Se eu te faço gozar e quantas vezes eu te faço gozar interruptamente. Enquanto você pensar em mim, eu continuarei internado.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
14h46
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Plágios Originais Parte III
O Amor Acaba*
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
*Paulo Mendes Campos foi um cronista mineiro de mão cheia. Foi muito ligado aos igualmente mineiros e escritores Fernando Sabino, Hélio Pelegrino e Otto Lara Rezende.
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Dublês de Poeta
às
19h51
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Plágios Originais Parte II
Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvores.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes, podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
19h32
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Plágios Originais
Paris é uma festa, escreveu Hemingway. São Paulo é aquele lugar que sempre paramos depois das festas, escreveu Caio Campos. Belo Horizonte é a cidade em que nos recuperamos das festas em outras festas e em noites brancas sem fim e em rodas gigantes e em auroras amarelas e em pores-do-sol azuis. Até as árvores são mais bonitas quando a gente está comovido com a ausência.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
10h51
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Apenas xingamentos
Meus camaradas, meus caros amigos, meus amores. Ainda era passado no tempo em que vocês morriam em Pamplona, em algum verão de 2009. Já fazia jornalismo novo naquela época, sem conhecer Thompson, Capote ou Norman Mailer. Já me superava enquanto vocês se surpreendiam quando o barco afundava. Já xingava os professores de idiotas antes mesmo deles abrirem a boca. Já pedia demissão desta jornada no tempo em que vocês, em crises existenciais, viam pedir emprego na porta dos desesperados. Tenho essa dádiva bravia, grosseira e rude em lidar com a hierarquia e afirmar a negação. Em lidar com convicções, com dinheiro, com drogas, com bebidas e com gente feia. Sou um manequim de vitrine. A poesia da vida me transformou num repugnante selvagem sintético.
Hoje sentei para escrever sobre nós. Eu, no meu desejo oculto - sujeito indeterminado: ela. Com tanto site pornográfico para visitar. Estou frágil como a víbora de Nietzsche, a ver meu veneno virando suco de caju. Ontem, meu mestre, ao corrigir minha notícia de morte, lançou-me um olhar matemático, acho que era um sete de soslaio. Eu pago alguns reais para escrever para vocês e ser avaliado. Alguns exigem pautas, clareza, outros batem palmas na escuridão - os mais exaltados; punhetas ou setes de soslaios. Outros exigem demais, roubam meu tempo e minha beleza. Eu não ligo. Meu nome é Caiocito, sou poeta cretino, tenho um blog e sou magro. Minha sobrinha, Julia Campos, de um ano de idade, não ri com as palhaçadas que fazem para ela. Exigem dela um sorriso. Tenho uma empatia com a pequena Julia, ela tem um olhar de desprezo pelo mundo.
Já era ateu antes de Deus dar seus primeiros pitacos, e antes dos franceses inventarem a semiótica. Eu pretendo me despedir dessa jornada, dessa vida, dessa apologia à serotonina estampada em nosso focinho: ao sorriso simples, ao olhar curvado desse antro de beócios; dessa gente de duas dimensões. Essas pessoas sem pintos e sem bocetas: misantropos perdidos em marte.
Aqui as coisas andam beges, ou talvez eu tenha bebido pouco. Vocês que morreram com tanta dignidade, arriscaram suas vidas e foram quase imortais. Sua visão raio-x sempre minuciosa, diagnosticando nossos tumores malígnos. Vocês que me incentivaram a sequestar quem eu amava e a matar quem eu odiava. Vocês que me incentivaram a roubar quando faltava dinheiro, e a blefar quando faltava carta: a sonhar na falta e fugir na presença insolúvel e no hiato maníaco de um final sem fim.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
02h06
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Aphorisme de la séparation
au revoir, grand frère
uni par um lien de solidarité
Escrito por
Dublês de Poeta
às
20h15
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Eu escrevo beleza febril e fermento, marchimelo com duas gotas de essência. Uma Rosada de ermo sem baunilha. Xícara preta são 10 horas e meu mandarim anda péssimo. O asfalto segue e as coisas mergulham na terra, macerando à solidão ao cheiro. Anote a receita, qualquer hora eu te amo. Um tchau e dois você inventa. O que sobrar nós chamamos de amor.
Escrito por
Dublês de Poeta
às
09h22
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Aforismo solitário
sou o samurai da depressão
morro mas não tomo rivotril®
Escrito por
Dublês de Poeta
às
14h21
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Autores:
Caiocito Campos, sofista inventor de
teses obscuras e opinista esteta comportamental.
Plínia Campos, advogada que está
quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo. |
dublesdepoeta@yahoo.com.br
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