Lírios

Vim pelo caminho do prazer. Pelo prazer fiquei, por ele prospectei. Jurei, vivi e até mataria - em nome da preguiça e da luxúria e sensações de lírios dos campos para os meus lábios, e deles pro coração. Esse prazer que mete medo e que por vezes xingam de alma.

Do outro lado do rio

Faz sol aqui deste lado do Rio. Você provavelmente dorme na sua cama que eu gosto e você não. Faz calor aqui deste lado do Rio. Você pensa, escreve, prospecta, imagina o que te faz mal e se a falta que sente é mesmo relevante. Há areia, mar e mulatas de biquini fio dental aqui deste lado do Rio. Você conversa com Proust e lembra das mulheres de Fabrice. Me encontra na beira. Me beija. De um lado o céu e o sal. Do outro, que se foda: o escambau. Me beija na beira. Que mais existe, besteira. Me inventa em uma canção e sorri. Espanta essa pata de siri, que nao larga de ti.



Escrito por Dublês de Poeta às 00h03
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O Sol Também se levanta. Página 156.

 

A condição humana nunca me espantou. Eu vejo um estudante todo atarefado, carregando uma pilha de livros que ele nunca gostaria de ter lido. Livros didáticos, Princípio da Filosofia, capítulo II, trecho: “procure uma pedra na beira do mar, sente e pense sobre o tempo”, ou Princípio da Sociologia, Capítulo III, trecho, “suba um morro, sente na calçada e pense no seu amiguinho do lado”, acho que deveriam ser assim os livros de filosofia e sociologia. Estudante sempre passa uma expressão de intelectualidade simples, satisfeita, sem nenhum constrangimento e cumpridor do seu papel, reduzido a satisfações e instintos de grupo.

 

Deve ser terrível visitar a cabeça de um estudante. E a cabeça de um estudante é sempre tão cordial e eufórica, expansiva e simpática, mas eu tenho asco só de olhar por fora. Nem sempre muito anfitriã são as mentes dos estudantes, sentem uma certa repulsa ao diálogo ou discussão. O jovem é sempre muito convicto, né? Eu sempre imagino o que um estudante carrega em sua mochila (fora os biscoitos recheados, a maçã, fanzines de algum protesto da moda, livros de capa vermelha e preta empoeirados de alguma biblioteca pública), será que eles carregam fotos de mulheres nuas, alguma droga sintética ou mesmo um livro do Proust?, não me espantaria. A condição humana não me espanta.

 

Para quebrar o astral eu sempre me pergunto qual sabor de sorvete que ele prefere. Vai que ele gosta do mesmo sabor que eu? Me forçaria a mudar de gosto e a rever toda a minha vida? Mas o estudante não tem cara que escolhe sabor de sorvete. Alguém que lê Marx e Weber e Proudhon e Malatesta e cita Che não é capaz de ter um sabor de sorvete preferido.

 

Em dias de prova na faculdade, eu sentava no canto da sala, abria algum livro de Hemingway e logo alguém vinha me perguntar, “vai cair na prova?”, eu olhava meio perdido, entretanto, via no rosto do pobre estudante ainda mais sem direção que o meu. Geralmente eu citava uma página, sei lá, página 156 de The Sum Also Rises, é um trecho importante, delimita uma das últimas boas narrações da literatura. O estudante logo se chocava, bruto e perplexo como chegara, saíra também.

 

Sou um homem que tenta atingir a civilidade. A condição humana nunca me espantou.. Sempre li o que eu quis. Aliás. Sempre fiz o que eu quis, na hora que eu quis. Ainda sim, por vezes, me vejo catatônico, com o olhar perdido no reflexo que invade as sombras dos transeuntes perfilados em direção ao cotidiano concreto de suas casinhas de homens. Eles andam depressa, inexoravelmente seguindo o fluxo.



Escrito por Dublês de Poeta às 14h02
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

dublesdepoeta@yahoo.com.br


 
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