Tâter de ses Duchesses - 2º edição revisada

A Duquesa não amava. É importante dizer isso logo. Também é importante que saibam que ela se chama Mathilde. Da mesma maneira que é importante citar um trecho do livro Sagrado Campista pelo qual a Duquesa foi educada:   

Vida - coisa pela qual fiz sem nenhuma referência baiana. Avancemos. Eu vos encontro em Outback - OZ - e vos reconheço em dúvidas de Small Sea. Escondo-me na certeza dos outros. Diga-me um absurdo e em mentira vos encaro fazendo careta e dizendo outros dois: a vida é linda, a vida é importante. Séc. III depois de Caiocito.

Diziam que a Duquesa tinha pouco espírito prático, e o pouco que tinha não era razão para acreditar nos homens, Deus ou no Rei Roberto Carlos. Aliás, crer, (crer em qualquercoisa) demora demais. Quem confere? Num sorteio em Gaulois, Cidade do Castelo, deu coroa, e a Duquesa escolheu virar orgulho da família.

E Girard? Girard era foda, mas virou poeta para conquistar o coração da Duquesa. Perdeu seu talento para coisas fodas e ficou apenas com argumentos de cidadão honesto para justificar sua existência. Girard pedia ao tempo mais tempo, porque metade do dia ele gastava com o medo pedindo coragem, e a outra metade era alívio da alma ou qualquer coisa astral que deixasse a existência frouxa.

Todos do Castelo odiavam Girard porque Girard não tinha Castelo, nem Lego, nem Banco Imobiliário. Conhecer Girard não mudava a vida de ninguém em Gaulois, embora seus versos pudessem matar qualquer espécie viva de tédio e viva de lagosta e viva de outros crustáceos.

A melancolia e a água viva que queimava o coração de Girard quando pensava no belo corpo da Duquesa, dava a ele forças e pesadelo suficientes para mais e cada vez mais very much, so much! O muito estava sempre próximo dele, e o muito é muito íntimo do nada, embora apenas por parentesco, hein.

Girard tinha duas estratégias: fugir da obviedade sinistra de mentes trópicas. E a outra ele só condicionava pra quem tocasse "uma" pra ele. Quando questionado sobre sua condição de poeta, dizia-se louco. E quando questionado sobre sua loucura, dizia-se poeta sóbrio e com limites. Assim ele nunca era reconhecido. Podia disfarçar-se sempre de príncipe ou de moralista ou de sapo ou de arara ou de outros limites.

A Duquesa soube mais tarde da existência de Girard. Soube que ele tinha fama e desafiava a diabetes e o teorema de Talles. Era fanático e tinha vida interior e outros aspectos humanos. A Duquesa, dizendo isto e aquilo outro, de nada chegara a conclusão maldita.

 -  A Duquesa resolveu dar - disse o autor.

Decorou os seios com rosas brancas e vermelhas e sorvete blue ice e outras delícias. Os mamilos iam acelerando de tesão e girando igual pião por conta do calor do atrito e convenções físicas.

A luz forte do sol refletia os mamilos cada vez mais dilatados, como dois cérebros expostos e crus. Girard sentiu o chamado e eu pulei uns três parágrafos de preguiça. Girard correu e correu com sua calça de moleton e sua ereção infinita segurando um verso insano. Gritava qualquer coisa dissecando e amiúde vísceras fígado e coração de beterraba dizendo-se o último poeta puto inglês: How this spring of love. The uncertain of glory. which now shows all the beauty of the sun and by you and by too and by beautiful and urgh and bah a cloud takes all aways wonderful ia!

A Duquesa, do topo de seu castelo, apreciou a mata se abrindo e a luz do sol a escoltar o corte da terra. A Duquesa resolveu ir ao encontro de Girard e desceu as escadarias abreviando degraus freneticamente com os seios saltintantes - igual atriz pornô na versão Sex and City for man. Seu pai, senhor de idade de engenho e de menor, segurou a mão dos eunucos que, perdendo os olhos pelo nariz, visão dos seios e unhas da Duquesa, e outras semelhanças lógicas textuais de compreensão, não entenderam nada do que se passava ali abacaxi.

Girard gritava do lado de fora do castelo quando foi atacado por um soldado montado num travesti novaiorquino do século XXI e outros personagens de goiaba e woody Allen. Capturado, Girard foi levado ao Rei Roberto que o castrou e o promoveu príncipe dos eunucos. E seu pênis serviu como lição e homework. A partir dali, a Duquesa nunca mais usou sutien nem bebeu cerveja com stonehenge nem comeu comida dibuteco.



Escrito por Dublês de Poeta às 06h21
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Mas se tudo desse certo

Já se passavam quatro dias e dois sonhos. Dois passaram voando e os outros dois tão depressa que pareciam o bastante, mas não eram, vou contar: eu dormia e era acordado por uma voz doce e misteriosa dizendo, "Mar, meu salgadinho".

A voz se instalava por inteiro, comprida e nua como o início da primavera. Sensual e bela, entrava pelos móveis e se misturava instalando-se no ar gélido da manhã e no frescor tímido e preguiçoso que se apoiava sobre meu travesseiro, "Mar, meu salgadinho". Um bocejo assim e ali, depois e mais dois, de maneira que a voz, feminina, jovial e vívida, como uma macieira no ápice da primavera, ia ficando cada vez mais atraente se comparada a uma janela no porão, ou um porão no meio da janela. "Mar, meu salgadinho".

Melodia, ah, essa melodia. Mas já eram dez horas da manhã e eu não levantava desse mundo nem por boceta alguma, embora aquela voz que saía agradável e soava com mesma intensidade, me fizesse remexer por debaixo dos lençóis, me fazendo acreditar que eu estava mais vivo que minha própria esperança por isso. "Mar, meu salgadinhôô". Essa entonação no último balbuciar deixou-me um pouco cismado. Descobri que não é pelo prazer que acordamos pra vida, e sim pela cisma. Tudo que fazemos é por cisma de alguma coisa ou por ensimesmado de coisas por si mesmas sombrio.

Tem sempre algo agressivo e hostil esperando por você no próximo parágrafo, ou não se engane tão facilmente. A indiferença pode levar o leitor a acreditar num desprezo do autor pela narração cretino-literária, que é a falta de caráter, concisão, coesão, lógica, picolé de morango e outras auto-deliberações que desrespeitam o receptor. Mas não, ainda não. Porque ainda estava na cama, embora aquela voz continuasse célere e cada vez mais firme. Tudo que é firme é rude. E toda mulher rude parece um pouco com o operador de elevador às sete da manhã. Ou com o padeiro bigodudo. A mulher tem que ter algo de vulnerável na voz. Um brilho ingênuo. Algo de inseguro, isso me parece muito feminino e, por isso, perfeito. É com essa premissa, além do machismo, que foi construído todo o romantismo do mundo.

"Porra, Mar", gritou a voz - se é que voz grita ou se existe mesmo cabeça de bacalhau -, até então era apenas uma voz que interagia lânguida e fina até se revelar grotesca. Olhei pro lado e a Paola continuava dormindo. "Juremar, seu filho da puta, eu sei que você está aí com uma vadia". Escutei a interpelação, já com o coração gelado e com os músculos contraídos. Pensei em levantar, mas ignorei meu medo. "Juremar, seu embucetado". Pensei que isso já estava ficando demais, embora eu desconheça a proporção do muito e da importância das coisas em demasia. A Paola tinha um sono leve de mulher encantada e podia acordar a qualquer momento. Então resolvi levantar e olhar pela janela. Era ela, a voz: "Juremar, você está me traindo com a Paola". "Não, é cisma sua", respondia com firmeza. "Essa vadia está na sua cama". "Não está. Escuta, Voz, se estivesse, seria apenas uma prova do seu amor, uma prova de superação; de razão: da razão pelo amor, do seu amor, do nosso amor por mim. E isso trazia sua segurança eternamente comigo. A superação da insegurança. A certeza da estima e do autocontrole. Ode ao legítimo e à liberdade.

Argumentei, pela janela, entrei em assuntos de conteúdo. Cheguei a consultar a arqueologia conceitualista da minha retórica, embora tarefa pouco atraente, nessas horas ela sempre ajuda. Todo pensamento consultado é um vício e vem acompanhado de expressões sem olhares dissimulados e com ausência de lábios cortados e maçãs rosadas. Reparem. Repitam algum conceito de Pierce ou Theodor Adorno (ou qualquer outro conceitualista que você conheça) de frente para o espelho e veja se você não fica parecendo um atendente de lanchonete dizendo que acabou o café. É igualzinho. Pelo menos para mim é tão óbvio e sensato, que pensar que outra pessoa não pense o mesmo é vestígio do declínio da civilização e perda total da polidez.

"Juremar..." "Jure..." a voz foi enfraquecendo até desaparecer! A voz foi vencida. Rendida pela palavra. A voz acuada pela interpretação. A voz indo embora, sendo dominada por um silêncio maníaco de glória e vitória. A voz sumindo aos poucos; como uma assombração derrotada, como uma assombração superada, como uma assombração que perdeu, que se fodeu, perplexa e assustada. A voz e o medo se foram, a cisma ficou. Paola continuou dormindo - a propósito, peladinha - e, femininamente, colocava as duas mãozinhas no cobertor, puxando-o graciosamente para cima, na tentativa de cobrir todo o rosto. Eu fiquei em pé, de costas pra rua, de costas para aquela janela, esperando o café chegar. Mas não tinha café.



Escrito por Dublês de Poeta às 15h26
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Hoje a justiça não funcionou.

Hoje é dia da justiça, e o que é a justiça? Justiça é uma mulher vendada segurando balança e espada. A balança é pra controlar o peso, a espada é pra amenizar a inveja do pênis e a venda... bem... eu prefiro a justiça de olhos bem abertos. 

"O fim do Direito é a paz;  o meio de atingi-lo, a luta. O Direito não é uma simples idéia, é força viva. Por isso a justiça sustenta, em uma das mãos, a balança, com que pesa o Direito, enquanto na outra segura a espada, por meio da qual se defende. A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é a impotência do Direito. Uma completa a outra. O verdadeiro Estado de Direito só pode existir quando a justiça bradir a espada com a mesma habilidade com que manipula a balança."



Escrito por Dublês de Poeta às 23h29
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A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?



Escrito por Dublês de Poeta às 20h09
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

dublesdepoeta@yahoo.com.br


 
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