Mas eu também já fui escriturário.

 

Nasci no tempo em que decorar poesia e recitá-la já era ser reacionário. Enquanto me convertia à várias seitas, em vão, e rompia com todas elas, no instante seguinte, meus amigos plantavam hortas e viravam selvas enormes, enraizadas.  

 

Agora eu sou do tempo em que cigarro e o gene causam câncer e a física é quantica. Era do tempo em que se usava cabelo surfista, eu insistia com meu corte chanel, cheesy but cool. Era do tempo das frases legais em inglês, Let’s go, let’s go that! Agora, no entanto La decadence est le choise très charmant de l’humanité.

 

Hoje eu mesmo corto meu cabelo e minhas palavras. Nunca consigo identificar o que eu fiz. Antes era preciso pensar na palavra certa para dar nome a algo. Agora eu preciso de algo para pensar. Vivo num país onde boina é de tio e cachecol só num puta frio.  

 

Sou do tempo em que, se não bastasse tocar violão, é preciso compor canções na guitarra ou teclado e gravá-las no computador. Sou do tempo que o hífem era-recurso, as tremas decoraväm verbos e os acéntos em ditongos abertos. Comme dit-on?

 

Lembro-me bem, porque eu também já fui escriturário. Sabia em que dia do mês estava. Tinha pra onde ir, e nesse lugar alguém por me esperar.

 

Sou do tempo que esse tempo já passou e eu teimo em não cair na real. Porque sou do tempo que a realidade está em colapso com a liturgia da modernidade. E em prantos, clama, Obama sem ortodoxia. Adeusão.

 

Um videozinho de Torquato Neto, por Jards Macalé e Paulo José. Agora sim, Adeusão.



Escrito por Dublês de Poeta às 20h35
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Professor Getúlio Montanha

Dia nublado pra cacete. O sol ameaça fugir pelo cu das nuvens. O professor de ensino fundamental, o excêntrico Getúlio Montanha, entra na sala com seu humor característico de sempre.

- Bom dia, filhos da puta de merda.
- Bom dia Professor. (coro dos alunos)
- Hoje eu estou muito contente. Finalmente parece que vai parar de chover nessa cidade de merda, Belo Horizonte fede. - Ricardinho!
- Presente, mestre.
- Não perguntei se estava presente seu veado estúpido. Quero saber o motivo pelo qual você só me aparece aqui molhado e com essa porra de touca de veado na cabeça.
- Professor, estou molhado porque a desgraçada da minha mãe não se casou. É uma pobre fudida que não tem empregada nem dinheiro para comprar-me roupas. Então eu venho com roupas molhadas ao invés de borradas de merda.
- Ok, Ricardinho, e essa touca?
- Tenho câncer professor.
- Que doença de merda, hein?
- Alfredo, venha até o quadro e apague toda essa merda que aquela professora sapata sempre deixa aqui, aquela cabeçuda nordestina, puta parida!
- Não posso professor.
- Por quê?
- Porque sou paraplégico.
- Ha ha ha ha. Eu sei, estava só brincando com você.
- Hilda.
- Sim, Getúlio.
Por que as mulheres falam mais do que os homens?
- Não sei.
- Porque os homens tem duas cabeças e as mulheres dois lábios, hahaha.
- Lopez
- sí.
- És argentindo, no és, Lopez?
- Sí, professor.
- Te orgulha ser argentino?
- No, pero mais que brasileño. Pero nenhuma nación latino america és mejor que o otro, professor. Son todos una mierda.
- Muy Bueno, Lopez.
- Lopez.
- Sí, professor.
- Sabes por que os argentinos podem jogar futebol e os cavalos não?
- Está comparando los cavaios com los argentinos, professor?
- Claro que não, nunca faria isso com os cavalos, Lopez. Ha ha ha.

- Vamos parar de merda. Vocês precisam aprender a não tomar no cu, caralho. Essa boceta de mundo que vocês vivem. Puta que Pariu. Vocês sabem que não tem futuro algum, sabem? E que todos os governantes de merda cospem na educação. E vamos morrer todos de bombas nucleares, miséria e preconceito?
- Não, professor.
- Você é cego, Bruno? O que estou fazendo agora?
- Mostrando o dedo do meio, professor.
- Então você sabe, Bruno, você não é cego, é inteligente, só que nunca usou isso. Agora Todo mundo mostrando o dedo do meio para o Bruno, porra!

(coro dos alunos) êê ê ê...



Escrito por Dublês de Poeta às 19h40
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Cabeça de Papel

Chesterton acredita em fairy tales. Eu não. Pelos menos não na proporção de Ortodoxia. Mas concordo que não tem nada mais prazeroso na vida que discutir usando varinha de condão. Eu desconfio de Chesterton. Embora acredite em toda sua bazófia à sombra da ciência. A tudo que é irresístivel e irreal. Nesse livro, muito arriscado que ele se propôs a escrever, o argumento usado é uma resposta ingênua e constante - como tudo que é óbvio - dada ao Bernard Shaw (o único homem que nunca escreveu poesia na vida, segundo Chesterton) e ataques de bolinhas de papel com secreções insípidas nos ateus e agnósticos de todos os tempos.

Ele criticou Nietzsche como quem discorda de um comentarista de futebol. Compara Joana D'Arc com Tolstoi, numa suplemacia demagógica que soa como elogio catatônico à risadinha de criança diante de uma palhaçada circense. E defende, declarado e apaixonadamente cego, a tradição e a manutenção do Cristianismo Católico. Isso tudo é digno. Ortodoxia, por vezes, é uma paralogia, uma anedota slow emotion, literatura cacetada. Ortodoxia não é para ser entendido, se for o caso, é obra do acaso ou fatalidade da sorte. Quem quer que se disponha a discutir o que quer que seja deveria sempre começar dizendo o que não está em discussão. Esse é um dos dribles que o Chesterton tem. Ele faz de tudo para você não acreditar em sua retórica. Isso é muito persuasivo por si mesmo.

Por mais que escreva um elogio à genialidade de Chesterton, ela é falsa como um truque. Ela é obscura como um blefe. Jamais me colocaria no papel do meu personagem como Chesterton fez. Dono de uma imaginação aguda, proriferou personagens realmente mágicos e dignos de romance, dignos de um homem de mente criativa. Mas nunca interpretaria uma cena sequer de um personagem meu, por mais quinta-feira que eu fosse. Por mais tradicionalista que fosse algum personagem meu. Ortodoxia é ruim. Chestertom é bom.



Escrito por Dublês de Poeta às 16h55
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 Isso explica

A próxima novela da rede Globo, escrita por Glória Perez,  terá um personagem blogueiro. Um indiano que vem morar no Brasil e cria um blog e tal. Será engraçado. Alguns blogueiros e portais já estão falando sobre isso.

Sei que a meta dos blogueiros é dominar o mundo sem sair de casa. Eu continuo sendo contra o modernismo dos blogs, contra o uso de maiô, bigode e gravata borboleta. Continuarei fazendo meus  post ready-made,  post-arte e post-retrô. Isso aqui continuará sendo um blog macho.

E para quem ainda não entendeu, aqui vai um clip falconiano que explica a questão da ploriferação de tanto blog "ajeitadinho" por aí.

E tenho dito



Escrito por Dublês de Poeta às 21h08
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Grande Sertão: Austrália.

Hoje eu acordei pensando na Austrália. Que país deve ser aquele. Pressenti que meu dia seria improdutivo. Não tem nada na Austrália. O país, em si, serve apenas de cenário para um filme da seção da tarde da Globo. Quando penso na Austrália, agradeço ter nascido brasileiro. É estranho dizer isso, nunca passei por essa situação. Ainda bem que a Austrália fica bem longe daqui. É uma verdade que me incomoda, mas nunca pensei que pudesse existir um lugar pior que o Brasil.

O quê tem nessa ilha além de algumas bandinhas de rock, comunidades de feministas e gays, surfistas e nadadores de medalha de prata em olimpíadas? Atores como Errol Flyn?, homosexual e acusado de estupro, que atuou na adaptação de The Sun Also Rises nos anos 50, - alguns jornalistas sem importância?, como todo jornalista do mundo.

Mais de 45% da Austrália é quente, feia, desértica e hostil. E o restante é uma Ásia loira, alta de olhos abertos, desgrudada do continente por acidente ou tragédia. Uma New Englad sem peito nem bunda, californiana, porém, com uma cultura mais próspera, simpática, pacífica, mais emergente, de pessoas mais expansivas e mais alegres, alegres demais.

Ouvi de um estudante brasileiro, que ama a Austrália, desinformado e de mente trópica, que Charles Darwin era australiano. Pelo fato de Darwin ser uma cidade australiana, que, aliás, bombardeada merecidamente pelo Japão. E a pequena ilha do oriente só não devastou a terra do diabo da tasmânia porque o Japão estava do lado dos Alemães, e a Austrália sem lado, isolada do mundo, foi aparada pelos aliados americanos. Austrália é isso, uma criança pobre com um passado obscuro, adotada por pais ricos.

A Austrália, apesar de ter abrigado os renegados e degredados ingleses do século XX, é um país bem adotado. Teve herança de um idioma e de toda uma cultura promissora e,  consequentemente, suas crianças estudarão a melhor literatura de Shakespeare, George Orwell, Oscar Wilde, Jaymes Joyce Eveyn Waug, Hemingway, entre tantos. E como a Austrália só tem pré-história, as crianças provavelmente estudarão artes, ciências, se aprofundarão no renascimento e no ilumisnismo europeu, e não confundirão a cidade de Darwin com a cidade natal do cientista inglês.

Sobre a Austrália, prefiro ficar com a passagem de Homero, onde a ninfa Calipso acolheu o grande Ulisses em seu arquipélago para um romance tórrido, que quase o fez desistir de sua viagem. Ou como Camões descreveu, nos Lusíadas, como ilha paradisíaca, cheia de ninfetas para os portugueses saciarem seus desejos. Ou até mesmo, daquela história de um herói aborígene, que depois de um feito em Sidney, as autoridades da cidade concederam a ele um pedido, no qual o índio australiano pudesse levar para Outback, in Oz, qualquer coisa da cidade como prêmio, e o jagunço gringo escolheu uma torneira. Parece piada de português, ou trecho de algum romance de Guimarães Rosa.

MAPA-MUNDI ATUALIZADO

 



Escrito por Dublês de Poeta às 12h29
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Aqui não é youtube nem google, mas... hoje é homenagem.

Em homenagem ao inclassificável humorista Ruy Goiaba, que abandonou o blog Puragoiaba em Novembro de 2008. Fez a maior batucada na blogsfera desde 2001 com postagens antológicas. Divertiu-se e nos divertiu. Valeu, abraços e, adeus não, até logo, professor.


Texto extraído do Blog puragoiaba.

O mais engraçado é que a continuação desse post critica quem gosta de alardear o que (supostamente) faz na cama e se considera "moderno" só por isso"  -  Porque me ufano deste país que não limpa a bunda (...)  Tentei a música. Custa-me confessar, mas eu fiz parte da primeira formação do Menudo, que na época, poucos sabem, era um sexteto (Charlie, Ricky, Robby, Ray, Roy e Ruy). Durou pouquíssimo. O empresário me despediu dizendo, sem muita delicadeza, que minha barriga cervejeira não combinava com o visual do grupo. Mas a história verdadeira é outra: eu fui o único da banda a passar no teste da farinha, o que implodiu minhas possibilidades de sucesso no mundo artístico. Como tantos outros fracassados, acabei fazendo jornalismo. Concorri à eleição de "jornalista do século 20" da revista "Imprensa", mas aqueles calhordas retiraram meu nome da lista antes da votação final. Nenhum problema. Outro goiaba deve ter ganho. Aliás, se você ainda não notou, o jornalismo brasileiro é o reino da bananada de goiaba. - Ruy


Adeus, Batucada (S. Silva)

Video de Ney matogrosso, com legenda em español, para deixar mais brega. O Ney sempre respeitou as canções e os compositores populares. Nunca sobrepõe sua voz à canção. Valoriza a batucada. Cantores populares precisam saber interpretar. Performance VOCAL e intermináveis solos é para tenores, musicos eruditos, orquestras e para os baianos de trios elétricos.

Na maior concepção de interpretação, Ney Mato Grosso, o nosso panda brasileiro. Mas a versão da Carmem Miranda, diga-se rapidamente de passagem, ainda continua insuperável. Caso vocês não conheçam, vejam aqui também.



Escrito por Dublês de Poeta às 09h14
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Teoria do pequi e do dream of 

Espero que você volte logo. It's hot outside, now, jude, it's bad out there, para variar nossa canção. Vou dormir com medo, mas com o coração sorrindo, "até logo" batucada, isso é sinal de alerta - estamos na melhor parte do sonho, quando as sombrancelhas tiritam com os lábios. Nunca acorde um sonâmbulo no meio do sonho. Sempre digo isso. Mas por que eu me repito tanto. Admiração.

Mas quero que aproveite bastante. "Coisas que você gosta e eu não gosto". Como não? dream of, remember? Eu gosto de pequi. O cheiro do pequi e o gosto que você não gosta (mas eu gosto). Sejamos loucos, românticos, mas, sim, civilizados, civilizados entre nós, claro, somente. E durma leve, sem preocupação. Vou estar esperando por você. Cometeremos todos os abusos possíveis que um ser humano pode cometer, tudo que deixamos para trás. Suicídios aristocráticos, crimes plebeus, sexo hediondo, anaïs nin aqui no trópico perde.

I also wish you was here, mas no meu caso não tenho ninguém pra dizer isso. O que torna todas as coisas uma declaração à sua ausência. Foutre Nietzsche para as pessoas que não tem sua própria teoria.  Esse blog é meu, aqui eu minto, falo verdade, invento e não dou explicações. Aqui sou antipático, não peço amigos, não quero comentários. Jane Aunsten disse em seu livro,  Pride and Prejudice, que orgulho é sentir-se "cheio de si", enquanto a vaidade é que o outro ache que você é "cheio de si". Eu digo que tenho vaidade de você, jude.

Sabe a diferença dos escritores clássicos para os escritores marginais? como diria meu guru de pijamas, é pouca. l'decadence est le choise tres charmant de l'humanité, por isso vou exercitar meu bíceps. Acabo de quebrar minha independência por artefatos, me acento agora, deslumbrado com duas coisas que me apetecem de deslumbramento e vaidade, meu pensamento e você, jude. Olha o que eu achei, jude?, uma confissão: a busca pela liberdade vive presa em ideologias e facetas baratas, leis e tudo que não vem ao caso. Filosofia é coisa de mijão.

Volto a falar de mim. De nós. Eu, cavaleiro de neve, em nome da eterna gargalhada, ataque! pois o mundo anda tão bonachão como sempre foi. Na falta de um interlocutor eu escrevo pra você, jude. Pego um caminho desconhecido. Por vezes, o menininho bobo que se tranca no quarto e não sai da décima página de Proust. Por vezes, o poeta mediocre e compositor barato. Por vezes, o escritor só por dizer e impressionar a atendente de marketing ou quem entra no meu orkut. Por vezes, o capenga, por vezes o super-herói. Por vezes o divisor. Por vezes seu amigo, por vezes seu inimigo. Inimigo de todos. Por vezes, o poético demais, estúpido e caoticamente poético. Volta logo antes que eu confesse em blog público que te amo.



Escrito por Dublês de Poeta às 21h17
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samuray

algo suscita - e no ato se supera

mesmo no vazio hostil da espera

eu me perfaço porque não me perfeito

eu me dramático, porque eu não me cometo

acometido fico sentido e semtigo

sábios sempre superam sábados e domingos

mas hoje é deserto, uma cama me deserta

areia, dunas e frenesi. encosto anagrama

encosta além da orla ou da costa dos lençois

o vão breu é abismo caso eu caio da cama

tenho poucas bíblias para acreditar

existir já é deveras surreal

escrever recital nem pensar

chove muito para ter esperança

um futuro feliz natal, desde já

 

e sem ao menos saber

qualquer papel erguer

vivo para morrer de aflição



Escrito por Dublês de Poeta às 20h51
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Autores:

Caiocito Campos, sofista inventor de teses obscuras e opinista esteta comportamental.

Plínia Campos, advogada que está quase fazendo qualquer coisa, sendo este quase, mínimo.

dublesdepoeta@yahoo.com.br


 
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